Avisa lá!!! Vai decolar!!! Logo, logo!!!


Não me agradam as meias-verdades. Prefiro logo a mentira deslavada, rigorosa, impúdica, que uma verdade que não é de todo verdade. A mentira é mais fácil de desmarcarar. Já as meias verdades exigem rigor, paciência, perícia, exigem que se separe a parte verdadeira da parte mentirosa, o joio do trigo.

Nesse processo é necessário ainda cuidar para que a parte verdadeira não se apresente como absoluta. Verdade absoluta somente a morte. Na vida, tudo tem aspectos positivos e negativos. São intrínsecos, dialéticos. A análise exige de nós considerações sobre o positivo e o negativo, os prós e os contras, o que fica bom e o que fica ruim. Para mim, todas as propagandas são "meias verdades". Enfatizam o "lado bom", o "aspecto positivo", insinuando que tal produto seria "só prazer"! "Financiamos seu carro 'Bufão' em até 36 vezes por apenas R$ 100,00 por mes"... mas não diz quanto se deve entregar de entrada, nem qual sua contribuição para a poluição atmosférica, nem quais acessórios seriam recomendáveis por motivos de segurança mas o veículo não dispõe; "Beba a cerveja 'Gracinha' pois você fica vendo lindas mulheres peladas"... mas não diz quanto de álcool tem a tal cerveja nem quais seus efeitos, particularmente em quem tenta dirigir; "Banco 'din-din Fácil', onde seu dinheiro é melhor aplicado e rende mais"... mas não revela os preços de suas tarifas, as penalidades para quem tem dificuldades em saldar algum empréstimo nem os juros cobrados sobre eventuais débitos!

Períodos eleitorais me irritam muito por causa disto: candidatos apresentam muitas “verdades” e denunciam muitas “mentiras”. Por interesses eleitoreiros, quer dizer, garantir votos para sua eleição, falam verdades sem analisar prós e contras, denunciam mentiras sem reconhecer os aspectos verdadeiros do “fogo” por trás da “fumaça”. Breve estaremos crivados de exemplos, logo que a campanha eleitoral para prefeitos e vereadores tomar corpo.

Eleições à parte, no debate ideológico, sobre qual sociedade oferece melhores condições para a qualidade de vida de seus cidadãos, também vejo muito jogo sujo, muitas meias-verdades apresentadas como “verdades absolutas” e muitas “meias-verdades” como mentiras absolutas, sem reconhecer seus aspectos verdadeiros e justos. Porque na vida, na minha opinião, tudo é relativo. Como todos dizem, absoluto só a morte!

Que tem isso a ver com Constituição? Tudo, na minha opinião!

Se a constituição regula a vida social de um país, temos que considerá-la como um elemento que terá seus aspectos positivos e negativos, não poderá ser boa para todos, embora a democracia exija que seja o mais ampla possível, que resguarde e preserve os direitos individuais, que respeite minorias, que busque o consenso à exaustão. Mas não será perfeita. E deverá dispor de regulagens que permitam, sempre que necessário, ajustar aqui e ali sem desarticular o todo, sem desmontar o equilíbrio construído com suados debates e negociações. Sim, negociações de interesses, pois a sociedade é composta de cidadãos onde cada um tem seus interesses.

Curiosamente, o que me troxe a esta conversa foi uma notícia lida essa semana sobre a liberação de novas fotos de Carlos Lamarca, sob a guarda do Arquivo Nacional, tiradas no Instituto Médico Legal de Salvador (BA) possivelmente por agentes do SNI (Serviço Nacional de Informações), após seu assassinato. As marcas de bala comprovam que ele foi executado, segundo especialistas. O irmão de José Campos Barreto, esse também executado na mesma ocasião e que acompanhava Lamarca, afirma: “Essas fotos, desconhecidas, mostram claramente que houve uma execução".

O distinto leitor vai agora perguntar: “Sim, mas e o que tem a haver meia-verdade com Carlos Lamarca?” Exatamente o que chamei de curioso: esse assunto detonou inúmeros comentários na Internet, prós e contras, acalorados, mas visivelmente baseados em “verdades” que não são absolutas, mas tratadas como tal, particularmente as relativas a posturas ideológicas. Há vários comentários de leitores em relação e essa notícia. "LAMARCA desertou, roubou fuzis e ASSASSINOU INOCENTES"; "Por que colocam fotos de um traidor da pátria neste jornal?....manda essas fotos pra Cuba."; "Vou resumir a Historia recente da ERA PT: CORRUPÇÃO CORRUPÇÃO CORRUPÇÃO...."; "O que envergonha uma grande nação?? Pessoas defendendo torturadores e ditadores.... ".

Qual a verdade? Com todo o respeito à memória do Capitão Carlos Lamarca, vou deixar para outro dia a apreciação dos fatos históricos envolvidos no debate acima. Hoje vou questionar: por que nos satisfazemos com qualquer afirmação que ouvimos? Por que não vamos a fundo e tentamos descobrir os acontemientos que acarretaram tal ou qual situação e outros desdobramentos? Por que sempre consideramos verdade o curto relato - e muitas vezes tendencioso - que jornais, revistas, Internet, rádios, televisões e suas notícias transmitem? Por que nos esquecemos que os acontecimentos não são isolados e têm suas origens e ambientes onde se desdobram?

Na minha opinião, para termos um país melhor, precisamos, todos nós, ser mais exigentes com o que ouvimos, o que sabemos, a quem interessa, prós e contras... porque nada é absoluto nesta terra! E uma nova constituição certamente irá estimular o debate, a depuração de princípios e de formatos, o entendimento de democracia, a representação equilibrada de interesses, os caminhos que queremos garantir para o futuro de nossos filhos e netos, de nosso planeta.

Até a próxima!