Ilha das Caieiras querida!

Decolando...foto google

Ilha das Caieiras querida

Onde iniciei minha vida

Você me ensinou a amar

Por você hoje eu choro

Não sei dizer onde moro

Por que fui eu lhe deixar?

Velha sextilha que fiz lá pelos anos 70! Não sabia que ainda voltaria a morar, por pouco mais de um ano, no velho sobrado que meu avô construiu.

Hoje museu do Pescador, foi desfigurado durante a restauração pela prefeitura. Destruiram a escada dos fundos, que era externa, a caixa dágua, que recolhia água da chuva pelos telhados do sobrado, e a cozinha, que se destacava da construção principal. Conservaram a fachada da frente, pelo menos.

A “rua”, como era chamada, hoje oficialmente é a Rua Bandeirantes, após um trabalho social realizado pelo Bandeirantismo em fins da década de 1960. Curioso é que até por volta de 1962 não havia acesso para carros a essa rua, hoje Rua Bandeirantes. Nem vindo pela Rua dos Coqueiros, que era já assim chamada naquela época, nem pelo Caboré, onde a beira do pátio da Igreja dava em uma encosta bastante íngreme que descia até o mar. Lá dentro dágua se avistavam algumas colunas de pedra cuja construção já havia sido consumida pelo tempo.

Mas meu avô, comerciante e necessitado de abastecimento mais regular, comprou uma casa na rua dos Coqueiros, com recursos próprios, casa já antiga para a época, de dona Felicidade. Mandou derrubar a casa e construiu uma passagem para carros entre a Rua dos Coqueiros e a “rua”, aterrando com recursos próprios, também, o trecho que ainda era pedaço de praia. A terra era retirada dos fundos do sobrado, que na época era uma colina, por um trabalhador braçal conhecido por “Jaburu”, em uma carrocinha puxada a mão (pouco maior que um carrinho de mão). Muitas e muitas viagens entre o sobrado e o ponto de aterro, até dar passagem para carros e veículos de transporte! Posteriormente a prefeitura construiu a passagem para o Caboré, e após as ocupações do bairro São Pedro, na década de 80, todas as vias foram melhoradas.

parte aterro ligação

Na rua dos coqueiros moravam, que eu me lembro, pelo lado de cima, seu Osório, seu Joãozinho e Dona Nadélia e, mais para a frente, já na passagem de pedestres que existia para a “rua”, seu Chico e dona Donilha com os filhos Lelia, Nainha, Guilhermina, Délio, Sergio e vários outros. Logo adiante morava seu Antonio “chobicho” (era assim que eu escutava) e dona Aleida. Pelo dado de baixo, lembro de seu Valdemar e dona Jovem, pais de Laurindo, Lindaura e outros. Depois vinha dona Laura e família (seus filhos Alvimar, Ademilde, Arilda e outros), Seu Benedito (Bino), dona Isabel, Eufrosino (fofô) e Seu Manoel, pai de Floriano e Nego, além de dona Felicidade.

Já na rua principal moravam seu Henrique Gasparini, Dona Ambrosina, o terreno de seu Antonio “sete-voltas”, seu João do Patrocínio com esposa e filhos (Marli, Janjão, Russo e demais irmãos), dona Eloá e seu Manoel com seus filhos João Pedro, Magno, Ademar, Anita, Luciano e outros menores, Nainha e Amadeuzinho, pais de Eliana, hoje líder das desfiadeiras de siri. Morava ainda, ao pé do monte onde fica a igreja, seu Barreto. Quase em frente à casa de dona Ambrosina havia um pequeno chafariz, derrubado e utilizado como entulho quando a rua foi melhorada pela prefeitura. A água vinha da nascente lá do sítio do Jacaré.

E morávamos nós no sobrado onde no térreo era o armazém do meu avô (secos e molhados, como se dizia na época - a venda do seu Duca), hoje o museu. Pelo lado de cima da "rua" havia ainda a casa que era utilizada como “Escola Singular da Ilha das Caieiras”. Todos pelo lado de cima, “com vistas para o mar”. Do lado de baixo só havia três casas: dona Nunu e seu Antonio sete-voltas com os filhos (Penha, Ademir, Moises, Toinho, Tuca, Mindoca e os menores), a casa onde funcionava o Clube de Futebol Racing - que anteriormente havia sido "Navegantes" - e a casa de seu Orlando, onde morava com a família. A sede do Racing também era utilizada como sala de aula, revezando-se com a sala do lado de cima da rua, não sei bem por que.

Já no Caboré, onde funcionava a fábrica de cal, que utilizava conchas extraídas da foz do Rio Santa Maria, moravam próximos seu João Leonel, da rede de arrasto, seu Zé do Cosme, da outra rede de arrasto e cujo filho Jorge era o rei do acordeon, seu Bá (muito bom violonista), dona Hilda e seu Amintas, com os filhos Juca, Reginaldo, Ivete e outros menores, seu Amadeu, gerente da fábrica de cal, com esposa e filhos, Jaburu e esposa, já mencionado como o trabalhador que fez o aterro para meu avô e dona Ana, lá no alto ao lado da igreja. Próximo a ela, dona Ofélia. Outros moradores havia, mas “seu” Alzheimer carregou os nomes com ele!

Na maioria eram pescadores, havendo uns três ou quatro, como meu pai, que trabalhavam em escritório ou no frigorífico, no porto.

A prefeitura (ou o estado) construiu, ao lado do campo de futebol do Racing, uma casa que seria a nova escola da Ilha das Caieiras. Mas, de tanto demorar a concluir as instalações, seu Chico e dona Donilha, após sua casa ser destruída por um temporal, fizeram a mudança para a casa onde seria a escola. Pelo lado de baixo dessa rua, já adentrando o mangue, moravam seu Manoel “Cabeludo” e dona Maria, aquele falecido aos 106 anos de idade, ainda lúcido e ativo.

Toda semana havia um dia em que a fumaça sufocava os moradores: era o dia da queima das conchas, que seriam transformadas em cal.

Contava o Padre Virgínio, conhecido por todos, que as origens do povoado datavam de uma epidemia de peste que assolara Vitória em meados do século XIX. Em fuga da terrível peste, alguns moradores da capital estabeleceram suas habitações nesse local.

Era assim que eu via – e lembro – da Ilha das Caieiras! Bela Infância!


PS: Alguns vídeos no youTube sobre o a Ilha das Caieiras:

http://www.youtube.com/watch?v=yOn4PHRCQSo

http://www.youtube.com/watch?v=LkZdli1N1L8

http://www.youtube.com/watch?v=huj9DV5EX-U

http://www.youtube.com/watch?v=t5RQnV5unrI

Até a próxima!