Dissecando o imaginário ideológico...

Aviao do blog

Dentro da guerra em curso em nosso país entre governo e oposição, muitos e-mails são disparados - e venho recebendo-os - tentando destruir as lideranças do grupo no governo.

Se alguém quer ser bôbo e achar que são apenas denúncias de corrupção e apropriação indébita, fique à vontade! Olhando atentamente percebe-se que são vários e-mails, cada um de um jeito, e se repetem na ânsia de denegrir lideranças e autoridades do governo. Não há nada parecido em relação a autoridades e lideranças da oposição, com muitos casos também de negócios escusos, o que deixa, a quem estiver atento, a certeza de que isto está "armado"!

Tentar destruir as autoridades e lideranças do governo - e só do governo - quando há tanta ou mais sujeira do outro lado, só pode ter um nome: guerra ideológica!

Vamos dissecar um desses e-mails: ele fala que Lula, ex-presidente, não se preocupou em estudar, sempre foi operário, não tem curso superior, não fala inglês, projetou-se na vida atrás de um copo de cachaça e do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo.

Já Joaquim Barbosa também era pobre mas se esforçou e a duras penas conseguiu estudar, se formar, pós graduar-se, passar em concurso público para juiz e ainda fala fluentemente cinco línguas!

Esse é o resumo. Bisturis à mão? Então vamos lá.

Primeiro eu gostaria de perguntar ao autor do texto (é tanto passa e repassa que o nome do autor se perde, se é que ele quer ser identificado), repetindo, perguntar ao autor se ele se sente frustrado. Pois com certeza esse autor nem chegou à presidência da república nem à presidência do STF. Também gostaria de dizer a ele que eu, particularmente, me sinto plenamente realizado sem ter sido nenhuma das duas coisas, não me considerando inferior aos dois cidadãos comparados!

Na minha opinião é um frustrado quem acha que para se realizar na vida é preciso falar "trocentas" línguas estrangeiras, ter pós-doutorado na Sorbonne e ser bajulado pela imprensa como um Deus!

Acho preconceituosa a visão de quem acha que vale mais quem tem mais diplomas ou fala mais línguas, ou, para ser mais radical, acho essa uma visão ideologicamente afinada com a elite dominante.

Continuando a ação do bisturi, vemos que o preconceito ideológico é tão grande que chega a desqualificar a ação combativa de um sindicalista que desafiou a ditadura e seus cárceres, não por buscar projeção pessoal, mas a conquista de direitos e melhorias para toda a categoria metalúrgica do ABC. Mobilizou milhares de trabalhadores em greves que mudaram a história do país e até mesmo os rumos da ditadura militar, sem dúvida!

Mas o autor do e-mail não reconhece isto e prefere elogiar apenas quem se empenhou a fundo para conquistar seu sonho pessoal. Nada contra os sonhos pessoais - eu também tenho muitos - mas acho muito mais louvável quem se sacrificou por um conjunto de pessoas do que quem se sacrificou em benefício próprio.

Dissecando mais a fundo, o autor condena, subliminarmente, a cachaça. Provavelmente toma uísque importado, coisa à qual a grande maioria da população brasileira não tem acesso. E o tomador de cachaça, meu senhor, que não tem curso superior nem fala inglês, esse nordestino não subiu na vida para si: quando presidente da república adotou políticas que tiraram da miséria mais de 40 milhões de brasileiros! Enfim, quem fez mais pelo próximo: o "estudado" ou o "peão da Vila Euclides"?

Para seu governo, prezado autor do e-mail, tenho a informar-lhe que não o repassei adiante. Joguei-o, como faço com todos os e-mails falaciosos, meio-verdadeiros e meio-mentirosos, instrumentos da guerra cibernética de cunho ideológico corrente em nosso país, na lixeira do computador.

Até a próxima!