Vovô Duca

Vovo Duca, filha e netos

Seu Duca era pessoa conhecida em toda a Ilha das Caieiras, e cliente estimado e respeitado dos atacadistas de Vitória. A venda do seu Duca era ponto de encontro dos pescadores do local, quando retornavam com suas canoas e seu pescado no meio da tarde. Ali eles tomavam uma cachaça e conversavam sobre os mais variados assuntos.

A venda tinha de tudo: feijão, arroz, farinha, lápis, caderno, tabuada, agulha, linha, biscoito, rosca - que era vendida em várias unidades e amarradas com um barbante através das mesmas, querosene - que chagava em dois tonéis de 200 litros cada, através do mar, pois não havia acesso a veículos motorizados até seu comércio, lenha - que era vendida em achas, normalmente meia ou uma dúzia delas. Fogões a lenha ainda eram muito comuns naquela época.

Tais achas eram trazidas pelo Rio Santa Maria, e entregues já preparadas ao meu avô, que as armazenava em um barracão nos fundos do sobrado, atrás da caixa d'água. A água dessa caixa era proveniente da chuva, recolhida do telhado do sobrado, e utilizada para lavar os copos dos fregueses que consumiam em sua venda. Em tempos de estiagem muito intensa, então ele pagava a alguém para transportar água do chafariz, que ficava a uns 50 metros dali, e abastecer a caixa dágua. Mas muito provavelmente se alguém perguntasse a moradores onde encontraria seu Manoel dos Passos Lyrio, poucos saberiam responder.

Na foto acima, de 1959, além de vovô Duca, aparecem sua filha (de óculos) com a filhinha ao colo, e alguns de seus netos (da direita para a esquerda: Marcos, Milton - eu, Adnete, Adneia, Terezinha e Tadeu); à esquerda há um pequeno galinheiro, onde dormia a criação da casa. À direita, já fora do ângulo de visão, ficava o barracão com as achas de lenha e, à frente desse barracão, a caixa dágua, essa demolida pela prefeitura, assim como os fundos do sobrado, com a argumentação de "preservar" o local! Preservar como, se destruiu?

No sobrado, adulterado por dentro, foi instituído pela PMV o Museu Manoel dos Passos Lyrio.

Pelas pesquisas realizadas no acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, o citado chafariz teve o seu orçamento encomendado em 1875, conforme consta no Relatório datado de 3 de janeiro de 1876, apresentado pelo "coronel Manoel Ribeiro de Coitinho Mascarenhas, por occasião de passar a administração da provincia ao Dr. Manoel José de Menezes Prado", que registra à pg. 4: "Em data de 30 de dezembro ultimo encarreguei o Engenheiro Civil Cezar de Rainville de apresentar a planta e orçamento de um pequeno chafariz no lugar denominado - Ilha das Caleiras - de conformidade com o disposto no Art. 19 da Lei Provincial n. 25 de 14 de Novembro de 1874, a fim de ser realisada a referida obra de reconhecida utlidade publica."

A obra do chafariz foi finalmente iniciada, de acordo com o "O Espirito-Santense" de 6 de agosto de 1887, que na segunda seção do expediente do governo provincial do dia 30 de julho daquele ano informa que "Ficou-se inteirado, pelo officio de Sebastião Ferreira, datado de 27 d'este mez, de se acharem em andamento as obras do Chafariz da Ilha das Caieiras, na parochia d'esta capital."

De certa forma, tal publicação deixa claro que a Ilha das Caieiras já existia com esse nome e era povoada naquele período, e não teve início com a construção da fábrica de cal que ali existiu na primeira metade do século XX (nem seu nome deriva dessa fábrica). Inclusive em tais jornais, só há referências a fábricas de cal no Forte São João, em "Caratoyra" e na Pedra d'água. Também fala de uma em Jaburuna, mas apenas uma referência em fins do século XIX, deixando a impressão de que pode ser a mesma da Pedra D'água, devido à sua proximidade. Para esclarecer ao leitor, a Pedra D'água era o local onde hoje se encontra a penitenciária do Estado, ao lado da baía de Vitória, e que em fins do século XIX foi utilizada para abrigar os colonos que chegavam da Europa antes de seguirem para o interior.

Para ficar nas constatações documentais, em 1843 já se encontra referências à Ilha das Caieiras, quando ali é estabelecido um limite para a organização policial da época: a jurisdição ia do braço de mar denominado "Passagem" à Ilha das Caieiras, conforme consta no relatório do Presidente da Província do Espírito Santo, encaminhado por oficio datado de 21 de marçco de 1861, contendo o relatório de 25 de maio de 1859, no qual à pg. 76 narra a organização policial do E.Santo, dividida em Termos e estes em Districtos. É apresentado o "Quadro dos termos e districtos policiaes da Provincia do Espirito Santo organizado pela Secretaria de Policia conforme a legislação actual." " A Provinicia do Espirito Santo contém 7 termos, e 20 districtos policiaes. Limites: Termo da Victoria (Criação. - Resolução presidencial de 30 de março de 1842.) Termo da Victoria, Districto da Victoria (Resolução citada.) A L. o Oceano, ao O. o districto de Cariacica, ao S. o do Espirito Santo, ao N. do de Carapina. Do districto do Espirito Santo divide-se pela bahia que forma o porto da capital até o rio Marinho (....) do de Cariacica pelo Lamarão d'esde o Porto Velho até o Porto da Pedra (.....); do de Carapina pelo braço de mar denominado passagem desde o litoral até a ilha das Caieiras (.....)".

Devia ser já local habitado, pois uma referência trata da prisão de um assassino que ali se escondia, e há notas sobre conflito de passagem para um morador do "Baracho", local assim conhecido até hoje, e que resultou na prisão do proprietário impeditivo. Há também emenda de parlamentar para o governo providenciar transporte de canoas "do Cajú à Ilha das Caieiras".

Outra referência interessante encontrada diz respeito à varíola, que assolou Vitória por volta de 1890, e que confirma a versão de Pe. Virgínio (já falecido): muitos procuraram a Ilha das Caieiras para fugir à peste que assolava a cidade!

Até a próxima!