Caieiras, Caeiras ou Caleiras?

Ilha as Caieiras

Ilha das Caieiras na década de 1970 - foto Milton Simonetti

Com certeza um dos locais mais aprazíveis da cidade de Vitória é a povoação da Ilha das Caieiras. Assim era chamada em fins do século XIX essa belísssima região, conforme constata-se pelos jornais da época.

Mas de onde viria esse nome de Ilha das Caieiras?

Fomos investigar, e uma referência se encontra na página digital do IBGE, que nos diz que já em 1535 ela ficou conhecida, mas só posteriormente foi denominada de Caleiras ou Caieiras:

“O início da história da Capital [Vitória – Nota do Transcritor] data do segundo quartel do século XVI, quando a carta régia de 1º de janeiro de 1534, surpreendendo Vasco Fernandes Coutinho, no seu solar em Alenquer, tornava-o donatário de uma das capitanias na costa brasileira.Folha da Victoria - 14/09/1888

No dia 23 de maio de 1535, domingo, a nau Glória, orientando-se pela serra do Mestre Álvaro, que se erguia no horizonte, recortando-se contra o céu, atravessou a barra de nossa baía, ancorando numa pequena enseada situada à esquerda, nas fraldas do morro da Penha, ao norte do morro de João Moreno. Julgaram ser a baía um grande rio. Os colonizadores deram à terra o nome de Espírito Santo, em vista da celebração, naquela data, da festa do Divino Espírito Santo, pela igreja católica.

Animado pelas autorizações contidas na carta régia de D. João III, que lhe assegurava direito sobre todas as conquistas levadas a efeito sertão adentro, cuidou logo Vasco Fernandes Coutinho de mandar fazer levantamento nas circunvizinhanças e mesmo no interior.

Arregimentados os colonizadores mais destemidos, estes, seguindo o caminho líquido que julgavam ser um rio, subiram pela barra, sob a ação hostil dos Goitacazes, descobrindo uma grande ilha que chamaram ilha de Santo Antônio [hoje Vitória – Nota do Transcritor], por ser o dia 13 de junho de 1535. O desembarque se efetuou próximo a uma ilhota que depois se chamou Caleiras ou Caieiras, como é conhecida, até hoje.“

As várias ilhas que compunham a geografia da baía de Vitória tinham cada qual seu nome. Aquela ilhota também receberia um. Mas por que Caieiras ou Caleiras?

De acordo com o Dicionário de Portugues Michaelis disponível na Internet, caleira ou caieira também é conhecida como sambaqui, palava singular, masculina, originária do tupi, que significa “colina resultante da acumulação de conchas, cascas de ostras e outros restos de cozinha dos habitantes pré-históricos do Brasil. Encontram-se sambaquis ao longo da costa (sambaquis costeiros ou marinhos), à margem de rios (sambaquis fluviais) e até em pontos distantes das águas (sambaquis centrais). Em Santa Catarina e São Paulo tem o nome de casqueiro, concheira ou ostreira; no Pará, cernambi ou sarnambi; noutros pontos do Brasil chamam-lhe berbigueira, caieira ou caleira. Var: samaqui.”

Aprofundando a pesquisa sobre tais montes de conchas, encontramos a página da Internet da PortoGente a qual explica que:

“Os mais antigos objetos encontrados no litoral estavam no que poderia se chamar de "Montes de conchas". Os povos que ocupavam o litoral comiam principalmente mariscos, ostras e peixes. Após se alimentarem, deixavam os restos desta alimentação sempre no mesmo local, formando um grande monte de conchas e ossos, chamado pelos arqueólogos de sambaqui.

São montes cônicos de conchas que podem atingir até 30 metros de altura que são encontrados em quase toda a costa brasileira.

Os sambaquis [caieiras ou caleiras – Nota do Transcritor] apresentam-se sob a forma de pequenas elevações formadas sobre tudo de restos de alimentos de origem animal (carapaças de moluscos, fragmentos de ossos de répteis, aves, peixes e mamíferos), esqueletos humanos, artefatos de pedra, concha e cerâmica, vestígio de fogueira e outras numerosas evidências da ação do homem primitivo.

Os sambaquis encontrados por historiadores e arqueólogos revelam camadas de conchas, restos de pontas de flechas, machados esculpidos em pedra lascada ou em osso, cerâmicas, esqueletos, sinais da existência de comunidades constituídas de caçadores e coletores, que detinham uma arte elaborada (expressa nos restos de cerâmica ricos em conteúdos simbólicos e sofisticados na forma). Os estudiosos chamam estes povos antigos de Cultura Sambaqui.

Através das camadas, dos vários níveis de matéria orgânica e inorgânica de um sambaqui, pode-se estudar a cultura material dos povos, assim como a evolução geológica da região. Porém a exploração dessas jazidas arqueológicas para a fabricação de cal destruiu grande parte dos sambaquis em diversas partes do Brasil. Os sambaquis também são conhecidos por casqueiras, caieiras ou caleiras, ostreiras ou berbigueiras, concheiras. Os homens e mulheres dos sambaquis desapareceram há 1000 anos e não se sabe como isto aconteceu. Os esqueletos encontrados indicam que eram baixos e fortes e muito diferentes fisicamente dos índios Tupi que os portugueses encontraram aqui no nosso litoral 500 anos atrás."

Calleiras com dois "L"Faltando ainda justificar a origem do nome Caleiras, Caeiras ou Caieiras para a localidade, continuamos nossa pesquisa através da Internet, e encontramos a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, que disponibiliza inúmeros periódicos de todo o Brasil para consulta pela própria rede. Comprometendo-nos a explicar depois como realizamos tal pesquisa, obtivemos como resultado inúmeras citações sobre a “povoação da Ilha das Caieiras”. Curiosamente, também encontramos a denominação de Ilha das Caleiras e Ilha das Caeiras nos jornais capixabas de fins do século XIX.

Uma dessas referências cita que em sessão da Assembleia Legislativa Provincial no dia 2 de maio de 1849, foi dito que a povoação necessitava de melhorias no transporte de pessoas e gêneros, tempos aqueles de D. Pedro II como imperador do Brasil. Tal relato, publicado em ata daquela sessão da Assembleia Legislativa no Correio da Victoria de 9 de junho de 1849, pg. 3, cita:

"Entra em 3ª discussão o orçamento municipal para o anno futuro de 1850: são oferecidas, e apoiadas, as seguintes emendas: ............

– A do Sr. Rezendo a qual é a seguinte: A camara da capital fará collocar desde já nas passagens da Pedra d'Agua, Porto-Velho, Itacibá as canôas precisas para transporte dos viandantes, cobrando destes a favor dos seus cofres, a taxa estabelecida na lei n. 6 de 25 de outubro de 1842 para a passagem da Barra do Rio Doce.

– Do Sr. Simões: accrescente-se á do Sr. Rezendo - a passagem do Cajú para a Ilha das Caleiras"

Portanto conclui-se que já em 1849 havia habitantes no local, visto haver necessidade de transporte regular. Também é referida em relatório do Presidente da Província (hoje seria governador do estado) do ano de 1859:

Esse relatório (do Presidente da Província do Espírito Santo), encaminhado por oficio de 21 de março de 1861, é datado de 25 de maio de 1859, e à pg. 76 narra a organização policial do E.Santo, dividida em Termos e estes em Distritos. É apresentado o "Quadro dos termos e districtos policiaes da Provincia do Espirito Santo organizado pela Secretaria de Policia conforme a legislação actual". "A Provinicia do Espirito Santo contém 7 termos, e 20 districtos policiaes. Limites: Termo da Victoria (Criação. - Resolução presidencial de 30 de março de 1842.) Termo da Victoria, Districto da Victoria (Resolução citada.) A L. o Oceano, ao O. o districto de Cariacica, ao S. o do Espirito Santo, ao N. o de Carapina. Do districto do Espirito Santo divide-se pela bahia que forma o porto da capital até o rio Marinho (........) do de Cariacica pelo Lamarão d'esde o Porto Velho até o Porto da Pedra (..........); do de Carapina pelo braço de mar denominado passagem desde o litoral até a ilha das Caieiras (...........)"

(Cópia digitalizada pela Biblioteca Nacional, disponível em: http://memoria.bn.br/hdb/uf.aspx)

Embora as citações anteriores não permitam afirmar categoricamente haver naqueles anos moradores na localidade da Ilha das Caieiras, permite afirmar que ela já tinha tal denominação e no mínimo era ponto de passagem de pessoas e gêneros. Alguns anos mais tarde, entretanto, escritos comprovam a existência de moradores ali, como o Relatório datado de 3 de janeiro de 1876, apresentado pelo coronel Manoel Ribeiro de Coitinho Mascarenhas, então presidente da província do Espírito Santo, "por occasião de passar a administração ao Dr. Manoel José de Menezes Prado", o qual registra à pg. 4, que "Em data de 30 de dezembro ultimo encarreguei o Engenheiro Civil Cezar de Rainville de apresentar a planta e orçamento de um pequeno chafariz no lugar denominado - Ilha das Caleiras - de conformidade com o disposto no Art. 19 da Lei Provincial n. 25 de 14 de Novembro de 1874, a fim de ser realisada a referida obra de reconhecida utilidade publica."O Espirito Santense - 21/08/1886

(Cópia digitalizada pela Biblioteca Nacional, disponível em: http://memoria.bn.br/hdb/uf.aspx)

Também se constata a existẽncia de moradores através de publicações tais como a do requerimento de aforamento de terreno no Sítio dos Coqueiros, na Ilha das Caieiras, publicado em "O Espirito-Santense" de 1º de julho de 1883:

“De ordem do Illmo. Sr. Inspector desta Thesouraria, faço publico, que tendo José Corrêa da Costa, requerido por aforamento perpetuo os terrenos de marinhas e mangal contiguos a sua situação denominada Sítio dos Coqueiros, na Ilha das Caieiras d'este municipio, de conformidade com o disposto no Art. 14 do Decreto n. 4, 105 de 22 de fevereiro de 1868, são convidados os posseiros confinantes e outros interessados, para dentro do prazo de 30 dias, á contar desta data, reclamarem perante o Exmo. Sr Presidente da provincia o qjue entenderem a bem de seus direitos, sob pena de perda da preferencia garantida pelo Art. 16 do citado Decreto.

Thesouraria da Fasenda da provincia do Espirito-Santo, em 27 de Junho de 1883."

(Cópia digitalizada pela Biblioteca Nacional, disponível em: http://memoria.bn.br/hdb/uf.aspx)

Em 1887 encontra-se novamente o tema do chafariz da Ilha das Caieiras no relatório apresentado à "Assemblea Legislativa Provincial" em 9 de julho de 1887, onde o vice-presidente da provincia declara que "Em data de 16 de junho ultimo, encarreguei á mesma Inspectoria de proceder ao orçamento da obra á fazer-se com o encanamento d'agua na Ilha das Caieiras, em cumprimento da disposição da lei, que autorisou esse melhoramento de reconhecida utilidade publica.

Em 1888 se prestava contas dos custos da construção da obra:“Devolverão-se ao Thesouro, para novamente informar, não só as contas das despezas feitas com a construcção de um chafariz na Ilha das Caeiras, como tambem o novo orçamento d'aquellas obras, organisado pela inspectoria das Obras Publicas em data de 17 de Agosto do anno findo”.

No jornal “O Espirito-Santense” de 16 de janeiro de 1875 foi publicado à pg. 4 do dito, anúncio onde cita também o nome de um morador:“ANNUNCIO DE MUDANÇA DE NOME: Joaquim Freire de Andrade, rezidente na Ilha das Caleiras, termo desta cidade, por haver outro individuo de igual nome, de ora em diante assignar-se-ha Joaquim Corrêa de Andrade.”

(Cópia digitalizada pela Biblioteca Nacional, disponível em: http://memoria.bn.br/hdb/uf.aspx)

O jornal “O Estado do Espirito Santo” de 29 de junho de 1890 anuncia, provavelmente como matéria paga, a festa de S. Pedro a ser realizada na povoação da Ilha das Caleiras:“Na povoação da ilha das Caleiras se effectuará nos dias 28 e 29 do corrente, com a pompa possível, a festa do Apostolo S. Pedro, havendo ladainha, leilão, regata, levantamento de mastro e fogo artificial. Funccionará em todos os festejos a Juncção, Perseverança e Respeito, dirigida pelo habil professor João Pereira de Azevedo. Para maior brilhantismo da festividade, pede-se o comparecimento de todos os fieis devotos. Ilha das Caleiras, 23 de junho de 1890. A COMISSÃO”.

Nesse mesmo jornal, em 13 de dezembro de 1891, publica-se a Resolução nº 116 da Secretaria Geral do Palácio do Governo do Estado (já não é mais província...):

“RESOLUÇÃO N. 116: O Presidente do Estado sob proposta do dr. Director da instrucção publica em officio nº 100 datado de hontem resolve …........... remover, a seu pedido a professora d'esta ultima escola [villa de Nova Almeida – Nota do Transcritor], d. Senhorinha Maria de Alcantara Soares para a (escola) mixta da povoação da Ilha das Caleiras, creada pela resolução nº 103 de 1º do corrente mez. Palacio do Governo do Estado do Espirito-Santo em 10 de dezembro de 1892. - José de Mello Caarvalho Moniz Freire”.

Havia na localidade a Capela de N. S. da Conceição, cuja benção em janeiro de 1896, pelo que parece, foi adiada a pedido do sr. vigário, segundo deduz-se de relato do jornal “Commercio do Espirito-Santo” de 1º de janeiro de 1896: “A commissão encarregada da Capellinha de N. S. da Conceição da Ilha das Caieiras, communica ao respeitavel publico que por motivos justos deixam de fazer a benção da mesma no dia 6 de janeiro. Ficando a disposção do sr. vigario para marcar o dia, o que será de novo annunciado. Ilha das Caieiras, 28 de dezembro de 1895. A COMMISSÃO”

Presumimos, assim, haver habitantes na localidade na segunda metade do século XIX, visto haver escola, capela, chafariz e até nomes de moradores mencionados em publicações da época. E já se denominava Ilha das Caieiras.

Referências à fábrica de cal no local só se encontra em 1917, quando foi leiloado terreno vizinho à mesma, conforme edital publicado vezes seguidas no jornal “Diario da Manhã”, iniciando-se em 11 de outubro de 1917:

“Edital de Praça: O dr. José Espindula Batalha Ribeiro, juiz de direito do civel, etc. Faz saber a todos quanto o presente edital virem que, no dia 20 do corrente mez, às doze e meia horas, nas portas do Forum desta cidade, serão levados em praça publica de venda e arrematação por quem mais der e maior lanço offerecer: Uma casa perto da fabrica de cal, no lugar Ilha das Caeiras, com duas janellas e uma porta na frente, uma porta nos fundos e duas janellas nos lados lateraes, coberta de telhas de zinco e edificada sobre esteios de madeira, paredes de estuque, medindo cinco metros e oitenta centimetros de largura por seis metros de comprimento, terrea e sem assoalho, avaliada por 300.000 reis. Uma dita coberta com palhas, também na mesma ilha, sobre esteios de madeira e paredes de estuque........... Dado e passado nesta cidade de Victoria, em 9 de outubro de 1917.”

Concluimos, assim, que a denominação teve outra origem que não a fábrica de cal, origem esta que continuará objeto de novas pesquisas, agora “in loco” na Biblioteca Pública Estadual, no Arquivo Público do Estado, No Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e na Biblioteca da UFES. Quem sabe não descobriremos tal origem? E sem dúvida a repassaremos a vocês.

PS: Alguns arquivos digitais dos jornais citados, obtidos pela Internet, podem ser copiados clicando-se AQUI.

Conforme havia indicado no principio desse artigo, passo a vocês como foi pesquisado o assunto na Hemerotec Digital da Biblioteca Nacional:

Digite o endereço da Hemeroteca no seu navegador: http://memoria.bn.br/hdb/uf.aspx

Hemeroteca Digital da Bibliotea NacionalNa página que segue (conforme figura ao lado), selecione:

1 - Escolha um local

Selecione ES (para periódicos do Espírito Santo, obviamente).

2 - Escolha um período

Selecione a década que deseja pesquisar.

3 - Escolha um periódico

Embora se possa optar por somente um periódico, é interessante selecionar TODOS.

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Coloque a palavra desejada, por exemplo Caieiras

Clique no botão pesquisar e aguarde. Rapidamente abre-se uma nova janela com a relação de ocorrências da palavra apresentada em cada periódico. Coloque o mouse no sinal de + (aparece à direita) e selecione "ir para a primeira ocorrência". Daí vem nova janela com a cópia do periódico.

Até a próxima!