A cigana leu o meu destino...

Foto da turma

Supostos irmãos de Maria Rusev
vivendo em Gurkovo, Bulgária

Brincadeirinha... a cigana não leu o meu destino! Mas a brincadeira acaba aí! Como na música de Simone, pergunta-se, mas em relação aos próprios ciganos: “O que será o amanhã? O que vai ser o meu (seu) destino?”

Infelizmente as esperanças não são muitas. Assim como várias nações indígenas brasileiras como os tupis, os tupinambás, os aimorés, os goitacazes e outros, os ciganos também não tem espaço para sua cultura no mundo tencológico em que vivemos, ainda recheado de preconceitos e discriminações, e tendem à extinção.

Sempre foi um povo perseguido, tendo sido quase extintos por Hitler na Europa. Aliás, Hitler perseguiu e massacrou judeus, ciganos, homossexuais e comunistas! Há muita divulgação e propaganda em relação aos judeus, esquecendo-se a tragédia vivida igualmente pelos demais. As câmaras de gás dizimavam a todos!

Há um artigo muito interessante, escrito por Mauro Santayana no Jornal do Brasil, a partir do encontro de uma linda menina adotada por ciganos na Bulgária e da expulsão para o Kosovo, pela França, de uma família cigana que lá residia, que tomo a liberdade de transcrever abaixo. Tragédias humanas e raciais, essas sim, longe de se extinguirem mesmo que em pleno novo Milênio!

Os últimos párias da terra

Mauro Santayana

Há alguns dias, o mundo acompanha, com atenção, o drama de duas meninas. Uma chama-se Leonarda. A outra, Maria. Leonarda, de 15 anos, foi tirada à força de dentro de um ônibus, em uma excursão escolar, e expulsa da França, junto com sua família. Maria, de 4, foi encontrada, há alguns dias, em uma cidade no interior da Grécia, e retirada do casal com que estava por suspeita de rapto. Leonarda é morena. Maria é loira.encontro outubro 2013

A primeira nasceu na Itália, e foi criada na França. Mas está em Kosovo, país em que nunca viveu, porque seu pai é originário dali, da antiga Iugoslávia. Seu irmão, Daniel, nasceu em Nápoles, mas mora na Ucrânia. Sua irmã, Erina, mora na França, mas nasceu também na Itália, assim como Maria, que tem 17, Rocky, de 12, Ronaldo, de 8, e Hassan, de 5 anos. Só a caçula, Medina, nasceu na França. Maria, encontrada com uma família em Farsala, na Grécia, pode ser filha — descobriu-se agora — de um casal de búlgaros que vive em um gueto da cidade de Nikolaevo.

O nome deles, curiosamente, é Rusev, quase como o da presidente Dilma. O casal Dibrani, pais de Leonarda, têm oito filhos. Os Rusev, pais de Maria, têm dez, e a mãe alega que teria cedido a filha a um casal na Grécia, quando morou no país, porque não tinha como dar-lhe de comer.

Mas, como é isso, em que tempo estamos? De que continente falamos? Da Europa do século 21, que manda sondas ao espaço, e se orgulha de sua alta renda per capita e do seu desenvolvimento humano? Ou da Europa do passado, com suas enormes famílias, com seus guetos, sua fome, e os milhões de miseráveis dos séculos 18 e 19? Falamos, infelizmente, do agora.

Na Europa de hoje, Leonarda e Maria não são duas meninas normais. Não têm passaporte, nem pátria, nem futuro. São ciganas. E em seu sangue carregam o destino dos últimos párias da terra. É certo que há outros deserdados, perseguidos por questões políticas ou religiosas, ou por serem minorias em seu próprio território. Mas todos têm sua terra.

A lembrança do país onde nasceram, a esperança de um dia terem um documento, de voltarem a ser alguém. Em uma Europa racista, cada vez mais xenófoba, e que não reconhece o direito de jus soli mas, na maioria dos países, apenas o de jus sanguinis (quando não basta nascer em um determinado país para adquirir a nacionalidade), os ciganos vagam, como fizeram nos últimos mil anos, sem eira nem beira, ao sabor do estado de espírito de quem manda no país em que estejam, e não podem criar raízes, nem quando deixam de agir como nômades.

Até o final da Segunda Guerra Mundial, os ciganos compartilhavam seu destino com os judeus. Com eles, eram expulsos, de um país para o outro. Com eles, foram espancados e roubados, desde que deixaram a Índia, rumo ao Ocidente, há cerca de mil anos. Em 1925, os roms passaram a sofrer, como os judeus, as restrições das Leis de Nurenberg para a Proteção do Sangue, que proibia o casamento entre alemães e "não arianos". Em 1937, a Lei de Cidadania Nacional relegou os ciganos e os judeus à condição de cidadãos de segunda classe. E Himmler emitiu decreto que chamou de "A luta contra a praga cigana", que solicitava toda informação sobre ciganos fosse mandada para o Escritório Central do Reich.

Se os judeus tiveram a Kristallnacht, com a quebra de centenas de negócios e a queima de sinagogas, os roms tiveram a “semana de limpeza cigana”, de 12 de junho e 18 de junho de 1938. O primeiro teste do gás Zyklon B, usado pelos alemães nas câmaras de gás, foi feito com 250 crianças ciganas, em janeiro de 1940, no campo de concentração de Buchenwald.

Ao contrário dos hebreus, os ciganos, no entanto, nunca tiveram um Deus que lhes desse terra prometida. Os judeus fundaram Israel. Os roms continuam, sem pátria e sem destino, a ser discriminados, perseguidos e mortos — por doença e inanição.

O leitor preste atenção. As crianças ciganas são as únicas, na Europa, que vivem em guetos exclusivamente étnicos. Os dez irmãos de Maria — se os Rusev forem mesmo sua família — dormem todos em um único cômodo em Nikolaev. Nos subúrbios de Bucareste, de Sófia, de Budapeste, ou nas fotos e vídeos da internet, é fácil reconhecê-las. São as únicas que têm a barriga inchada, devido aos vermes, e sempre na mão — por causa da fome — um pedaço de pão.

Até a próxima!