A inclusão social dos pobres

Papa Francisco

Papa Francisco


Mais uma vez o Papa Francisco surpreende. Lançou exortação apostólica clamando contra as injustiças sociais e o papel dos cristãos no combate a essas.

Segundo a Deutsche Welle "As exortações apostólicas são documentos papais, contendo recomendações a determinados grupos, como ao clero, por exemplo. Em termos de solenidade, situam-se abaixo das encíclicas e acima dos breves e das cartas apostólicas."

"Em Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho), o pontífice condena os excessos da ordem econômica global e propõe linhas-mestras, tanto para uma difusão da mensagem cristã condizente com a época atual, como para uma reforma das estruturas eclesiásticas, dando maior ênfase às igrejas diocesanas."

Na exortação, o Papa conclama os cristãos a ouvir os pobres citando os bispos brasileiros:

"191. Animados pelos seus Pastores, os cristãos são chamados, em todo o lugar e circunstância, a ouvir o clamor dos pobres, como bem se expressaram os Bispos do Brasil: «Desejamos assumir, a cada dia, as alegrias e esperanças, as angústias e tristezas do povo brasileiro, especialmente das populações das periferias urbanas e das zonas rurais - sem terra, sem teto, sem pão, sem saúde - lesadas em seus direitos. Vendo a sua miséria, ouvindo os seus clamores e conhecendo o seu sofrimento, escandaliza-nos o fato de saber que existe alimento suficiente para todos e que a fome se deve à má repartição dos bens e da renda. O problema se agrava com a prática generalizada do desperdício».

192. Mas queremos ainda mais, o nosso sonho voa mais alto. Não se fala apenas de garantir a comida ou um decoroso «sustento» para todos, mas «prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos». Isto engloba educação, acesso aos cuidados de saúde e especialmente trabalho, porque, no trabalho livre, criativo, participativo e solidário, o ser humano exprime e engrandece a dignidade da sua vida. O salário justo permite o acesso adequado aos outros bens que estão destinados ao uso comum."

Antes, já havia destacado a responsabilidade de cada um:

"187. Cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade; isto supõe estar docilmente atentos, para ouvir o clamor do pobre e socorrê-lo. Basta percorrer as Escrituras, para descobrir como o Pai bom quer ouvir o clamor dos pobres: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egipto, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspectores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de os libertar (...). E agora, vai; Eu te envio...» (Ex 3, 7-8.10). E Ele mostra-Se solícito com as suas necessidades: «Os filhos de Israel clamaram, então, ao Senhor, e o Senhor enviou-lhes um salvador» (Jz 3, 15). Ficar surdo a este clamor, quando somos os instrumentos de Deus para ouvir o pobre, coloca-nos fora da vontade do Pai e do seu projecto, porque esse pobre «clamaria ao Senhor contra ti, e aquilo tornar-se-ia para ti um pecado» (Dt 15, 9). E a falta de solidariedade, nas suas necessidades, influi directamente sobre a nossa relação com Deus: «Se te amaldiçoa na amargura da sua alma, Aquele que o criou ouvirá a sua oração» (Sir 4, 6). Sempre retorna a antiga pergunta: «Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?» (1 Jo 3, 17). Lembremos também com quanta convicção o Apóstolo São Tiago retomava a imagem do clamor dos oprimidos: «Olhai que o salário que não pagastes, aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, está a clamar; e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do universo» (5, 4)."

Além disso, enfatiza necessidade de abertura da Igreja católica, tanto em suas estruturas internas como em direção a outras religiões, como cita o artigo publicado na página da Deutsche Welle citada acima:

"É uma suposta segurança doutrinal ou disciplinar que dá lugar a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar."

Crítica a "mundanismo" e conflitos na Igreja

No documento de 200 páginas, o pontífice distingue diferentes manifestações dessa postura obscuramente mundana, voltada a "dominar o espaço da Igreja". Uma delas se exprimiria num "cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja", sem cuidar "que o Evangelho adquira uma real inserção no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história". Assim, a Igreja "transforma-se numa peça de museu ou numa possessão de poucos", resumiu.

Como antídoto, ele sublinha a necessidade de aumentar a responsabilidade dos laicos e aconselha os padres católicos a usarem uma linguagem positiva e compreensível, que vá ao encontro das necessidades da comunidade.

Mas o "mundanismo espiritual" na Igreja, prossegue a exortação, também pode se esconder "por detrás do fascínio de poder mostrar conquistas sociais e políticas". Ou se "traduzir em várias formas de se apresentar a si mesmo envolvido numa densa vida social cheia de viagens, reuniões, jantares, recepções".

Segundo o texto, outra manifestação desse mundanismo se desdobra "num funcionalismo empresarial, carregado de estatísticas, planificações e avaliações", cujo principal beneficiário é "a Igreja como organização" e não "o povo de Deus".

O papa apela para o fim dos conflitos e guerras internas na comunidade eclesiástica. Ele mencionou que lhe dói muito "comprovar como em algumas comunidades cristãs, e mesmo entre pessoas consagradas, se dá espaço a várias formas de ódio, divisão, calúnia, difamação, vingança, ciúme, a desejos de impor as próprias ideias a todo o custo, e até perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas". "Quem queremos evangelizar com estes comportamentos?", questiona.

Liberalidade papal e seus limites

A postura tendencialmente liberal do líder católico de 76 anos nascido em Buenos Aires se manifesta em sua reivindicação de uma Igreja "aberta" - já a partir dos sacramentos, cujas portas, disse, não "se deveriam fechar por uma razão qualquer".

O princípio se aplica em especial ao batismo, mas também à eucaristia, que "não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos", observa. Mas José Mario Bergoglio não menciona em Evangelii Gaudium os divorciados em segundo matrimônio, aos quais permanecem vedados sacramentos como a confissão e a comunhão.

Parte da exortação apostólica se ocupa do papel da mulher na sociedade, "com uma sensibilidade, uma intuição e certas capacidades peculiares", como a solicitude, "que se exprime de modo particular, mas não exclusivamente, na maternidade".

"As reivindicações dos legítimos direitos das mulheres, a partir da firme convicção de que homens e mulheres têm a mesma dignidade, colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e não se podem iludir superficialmente", observou o papa. No entanto, o sacerdócio reservado aos homens é para o líder "uma questão que não se põe em discussão".

Diálogo com não cristãos

Francisco disse, ainda, considerar essencial o diálogo com outras religiões e com os não cristãos, os quais estariam "justificados por meio da graça de Deus", se forem "fiéis à sua consciência". Afinal, "o mesmo Espírito suscita por toda a parte diferentes formas de sabedoria prática, que ajudam a suportar as carências da vida e a viver com mais paz e harmonia".

O papa Francisco sublinhou a importância da relação entre cristãos e os crentes do islã, "hoje particularmente presentes em muitos países de tradição cristã, onde podem celebrar livremente o seu culto e viver integrados na sociedade". Em contrapartida, ele implorou "humildemente" aos países de tradição muçulmana que "assegurem a liberdade religiosa aos cristãos, para poderem celebrar o seu culto e viver a sua fé".

Enfatizando as semelhanças entre as duas manifestações de fé religiosa, ele lembrou que os muçulmanos "conservam parte dos ensinamentos cristãos", e que igualmente "adoram o Deus único e misericordioso", reconhecendo a necessidade de "lhe responder com um compromisso ético e com a misericórdia para com os mais pobres".

O texto completo pode ser lido clicando-se AQUI (página da Rádio Vaticano).

Até a próxima!

PS: PESQUISAS NA HEMEROTECA

Conforme havia indicado anteriormente, passo a vocês como faço pesquisas na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional:

Digite o endereço da Hemeroteca no seu navegador: http://memoria.bn.br/hdb/uf.aspx

Hemeroteca Digital da Bibliotea NacionalNa página que segue (conforme figura ao lado), selecione:

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Embora se possa optar por somente um periódico, é interessante selecionar TODOS.

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