50 anos do golpe militar

abaixo a ditadura

A ditadura instalada no Brasil
em 64 sempre foi contestada!


Eu era pequeno, nem havia completado 11 anos. Não entendia a fundo o que se passava: sabia apenas que o Brasil estava em ebulição, que os militares estavam ditando as regras, e via caminhões usando tarjas pretas nas ruas, bancas de revistas queimadas no centro da cidade (era dos comunistas – diziam) em 2 de abril de 1964.

Via minha avó paterna se benzendo e agradecendo a Deus haverem tirado o fraco do Jango do poder e afastado o perigo do comunismo. Dizia que seria uma praga, seria a proibição das missas e das práticas religiosas, a acomodação de várias famílias em uma só casa... Tomariam tudo de todos, implantariam uma ditadura. Nem acreditavam em Deus.

pagina O GLOBO 1964

O jornal O GLOBO trazia a manchete: “FUGIU GOULART E A DEMOCRACIA ESTÁ SENDO RESTABELECIDA” (Duas mentiras, de cara: Jango não fugiu e a democracia estava sendo extinta, não restabelecida. Em 2013 as Organizações Globo se desculparam publicamente por ter apoiado o golpe.)

Minha cabecinha ainda não encaixava muitas coisas, reconheço. Minha diversão preferida era brincar de rezar missa e dar catecismo aos irmãos e vizinhos! Ainda desconhecia a democracia e suas exigências: em casa era a hierarquia dos pais, na rua a hierarquia da polícia, na igreja a hierarquia dos padres e do papa, na escola a hierarquia dos professores e diretora. Alguém acima sempre detinha a autoridade, alguém sempre sabia o que era certo e errado... por que eu questionaria os militares no poder?

Mas vocês já adivinharam: o tempo foi passando, os elementos se encaixando em minha cabeça, os abusos da ditadura aflorando, toda a juventude se posicionando, e assim fui percebendo a manipulação do golpe militar!

Muitas coisas até hoje continuam obscuras, mas já se sabe que os golpes militares na América Latina, e não só no Brasil, foram arquitetados pelo governo americano, e as práticas de tortura e repressão tinham treinamento de oficiais americanos. Exatamente: aquele país que diz ser o exemplo depágina O GLOBO democracia para o mundo ensina a seus súditos como dizer uma coisa e fazer outra sem levantar suspeitas – ou, pelo menos, pensam que não levantam. Se a gente for estudar a fundo a história do governo daquele país, vai perceber que no século XIX invadiram e tomaram um pedaço do México, no fim da segunda guerra explodiram duas bombas atômicas sobre populações civis para testar seus efeitos – Hiroshima e Nagasaki, fomentaram e subsidiaram ditaduras no Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Uruguai, São Domingos e outros países das américas,

Invadiram o Iraque com a mentira de haver alí armas químicas, promovem ações de espionagem no mundo todo para tentar controlar os países, enfim, não são confiáveis como governo. Basta estudar história.

A ditadura militar instalada aqui em 1º de abril de 1964 é apenas uma pedra do xadrez que o governo americano joga com o mundo. Não estou defendendo nenhum outro país aqui, mas reconhecendo com todas as letras que em Tio Sam não se pode confiar!

Só com o tempo acabei descobrindo que democracia não é só a vontade da maioria: democracia também implica em respeitar diferentes concepções (como a de quem discorda da minha abordagem acima), em conviver civilizadamente com minorias que agem diferentemente dos padrões da maioria mas não impedem nem prejudicam o cotidiano, em fazer concessões e costuras para a convivência pacífica, em respeitar minorias que tem outro tipo de interpretação e prazer, por exemplo. Democracia não é só voto: pelo contrário, descobri que democracia pode usar o voto, mas muitas vezes o voto é viciado por quem tem poder econômico e impõe meias verdades, ou mesmo mentiras, tal como fazia o ministro da propaganda nazista Paul Joseph Goebbels. E no Brasil, desde há muito, temos o exemplo de jornais, rádios e televisões.

Fico triste quando vejo brasileiros clamando contra a democracia, pedindo volta dos militares ao poder, aplaudindo as torturas e barbaridades que eles cometiam afirmando que as praticavam contra terroristas.

As pessoas que eles acusam de terroristas eram jovens idealistas, com ou sem armas, que tentavam exatamente reverter a situação que os militares haviam criado. Não havia luta armada no período anterior ao golpe! E qual o terrorismo praticado por Vladimir Herzog, Rubens Paiva e tantos outros assassinados sob tortura? E nem consigo imaginar a situação de quem passou diretamente pela repressão

A luta armada veio como resposta! Havia conflitos de terras, conflitos sociais, mas perduram até hoje! E para se debulhar um conflito social, tem que se entender muito de relações humanas, relações de trabalho e interesses econômicos e políticos regionais – motivos pelos quais abdico de detalhar os mesmos.Carlos Marighela

Na minha opinião não pode ser leviana a análise de fatos sociais, exigindo cuidado e isenção (não ser preconceituoso) ao julgar os mesmos.

Nada no mundo é perfeito. O combate à corrupção deve ser, pelo que aprendi, uma batalha permanente, e a sociedade deve estar atenta e criar mecanismos de acompanhamento em todos e qualquer governo. Não se pode descuidar.

O que me deixa triste não é a situação do Brasil atual, sexta potência econômica do planeta! O que me deixa triste é tantos brasileiros não saberem comparar a situação de hoje com a de 100 anos, 50 anos (dias do golpe), 20 anos, 10 anos atrás.

Você saberia?


Até a próxima!