O pai, o tigre e o braço

Electra decolando

Blogonave em vôo soberano no ciberespaço
que desejamos cada vez mais respeitoso!


Nossa grande imprensa, que adora um sensacionalismo, aproveitou-se dessa vez de um pequeno garoto de 11 anos (e continua aproveitando-se...) que teve o braço dilacerado por um tigre num zoológico. Promoveram enquetes para identificar o julgamento da população, perguntando se a culpa (e a punição) era do pai ou do tigre.

Perspicaz observador, Geraldo Tite Simões produziu interessante artigo (O tigre, o menino e o trânsito) onde pergunta se de fato o problema não estaria na educação do menino. Tão interessante, na minha opinião, que resolvi transcrevê-lo e está ao final, sem necessariamente concordar com seus termos.

Excelente debate: diria eu que a questão não está na educação em si, mas nos limites que repassamos aos nossos educandos. Uma criança sem limites não respeita os pais, não respeita outros cidadãos, não respeita perigo - não respeita a si próprio.

Se queremos que o mundo seja melhor, mais aprazível, mais fraterno, menos agressivo, também precisamos nos comportar melhor, sem querer tirar proveito de semelhantes, com respeito aos limites e necessidades de quem está à nossa volta. E precisamos repassar tais valores aos nossos descendentes. É a minha opinião.

Também nossas escolas, através de seus educadores, precisam estar atentos a estes valores, prestigiando-os e reproduzindo-os com nossos alunos. Nem todos os pais tem condições de acompanhar os filhos durante as 24 horas do dia, ficando portanto uma boa fatia do que chamamos de educação e cultura sob responsabilidade de nossos professores.

No caso do menino, coitado, fica a convicção de que faltou-lhe, observando-se que já tem 11 anos, o senso de limite que uma criança dessa idade deveria ter para arriscar-se a provocar um tigre em sua própria jaula através das grades, como vimos nas imagens. Ou, como argumenta o texto transcrito, faltou-lhe educação.

Também no sábado passado, 9 de agosto, os japoneses de Nagasaki homenagearam seus mortos vítimas da segunda bomba atômica lançada pelo governo americano. Foi uma bomba atirada sobre civis, com a desculpa de apressar o fim de uma guerra que já estava acabando, numa cidade onde não havia alvos militares consideráveis e somente tres dias após já terem conhecimento da catástrofe descomunal provocada pela primeira bomba, atirada sobre Hiroshima! Total estimado de mortos provocados pelas duas bombas e seus efeitos radioativos posteriores: 300.000 pessoas! Pudera um governo desses tolerar agora os crimes praticados por Israel, como comentei no artigo anterior.

Embora eu não tenha a grandeza deles, compartilho do sonho de Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Olga Benário e tantos outros: o mundo ainda será melhor e a humanidade alcançará a civilização.

Abaixo transcrevo a artigo comentado:

O Brasil ficou chocado nos últimos dias de julho quando um garoto de 11 anos teve o braço direito dilacerado por um tigre. O "acidente" ocorreu em um zoológico de Cascavel, PR, quando o garoto, acompanhado do pai, pulou uma cerca de proteção, ignorou os avisos de manter-se afastado e provocou primeiro um leão e depois o tigre. O desfecho todo mundo viu: teve o braço amputado na altura do ombro e terá a vida inteira para refletir sobre esse ato "corajoso". Esse acidente é exemplar, em todos os sentidos.

Quem acompanha minhas colunas sabe que há décadas eu insisto no declínio na qualidade do ser humano em sociedade. Especialmente no Brasil, país que parece caminhar ladeira abaixo no campo das relações humanas.

Felizmente alguém filmou e mostrou uma imagem que retrata o que vem acontecendo em uma sociedade desacostumada a respeitar uma autoridade. O garoto ficou por cerca de seis minutos atiçando dois felinos de grande porte, conhecidos por qualquer ser vivente como predadores. Até as pedras sabem que esses animais se alimentam de outros animais desde que o mundo é mundo.

Imediatamente após a divulgação das imagens começaram os julgamentos, principalmente os do "contra" e "a favor", seja do tigre, do garoto, do pai, do zoológico, de Deus etc. No atual modus operandi social de palpitar sobre tudo houve a esperada distribuição de culpa para todos os envolvidos, alguns até tentando amenizar o lado do garoto sob a alegação de que era "incapaz" de avaliar os riscos. Será? Com 11 anos você não sabe a diferença de um gato para um tigre?

Deixando um pouco o tigre de lado, vamos lembrar um pouco das histórias da Bíblia. Sem a menor conotação católico-cristã, mas apenas como exemplo. Muita gente atribui o pecado original ao sexo, fazendo uma analogia direta da mordida na maçã com rala e rola entre Adão e Eva. Mas Deus não poderia castigar pelo sexo, senão inviabilizaria a reprodução humana e jogaria por terra o famoso crescei e multiplicai".

O pecado original que condenou Eva e seu amasio ao mundo terreno foi a DESOBEDIÊNCIA. Deus deixou bem claro: não coma a fruta dessa árvore! E quando virou as costas lá foi ela e nhoc! Não tinha uma placa na macieira do tipo "fique longe, não coma". Por trás da desobediência está o conceito que quero chegar: o desrespeito!

Voltando ao zoológico, qual o padrão de comportamento dos visitantes: enfiar o braço na jaula ou manter-se afastado? Se uma criança violou o padrão é preciso olhar para esse caso isolado e tentar entender melhor de onde vem o comportamento tão prepotente.

Hoje em dia existe uma enorme confusão aqui em terras brasileiras com relação à educação. Também já escrevi sobre isso. E é um tal de pais entregarem seus filhos às escolas na crença cega de que o pimpolho sairá de lá um lorde inglês e com conhecimento de filósofo alemão. Mas em casa o filho faz o que quer, passa o dia no videogame, desobedece os pais e eventualmente despreza a autoridade dos empregados.

Educação é aquele conjunto de regras transmitidos de pais para filhos como uma carga genética. O que a escola transmite é conhecimento. Portanto, escola não educa, quem educa é o convívio familiar. Já defendi mais de um milhão de vezes a mudança do nome de ministério da Educação para ministério do Ensino.

Pergunto, que tipo de pai pode gerar um filho tão incapaz de entender a regra mais elementar, bíblica e basilar da educação que é a obediência? Que tipo de exemplo esse garoto tem em casa para ignorar tão descaradamente os perigos que envolvem o enfrentamento de um animal feroz? Uma criança que atiça descaradamente um animal selvagem como o tigre respeita seus professores? Obedece seus pais?

É o reflexo da falta de cuidado na educação, não da escola, mas aquela da formação do caráter. Quem enfrenta um tigre não é corajoso - como escreveram alguns - ou simplesmente desobediente?

Chamou-me a atenção o comentário de vários jornalistas que reforçaram o fato de no momento do acidente não ter nenhum vigia, embora o zoológico tenha se defendido alegando que a área é monitorada por quatro fiscais.

Ora, jornalistas são pessoas esclarecidas, viajam e normalmente voltam do exterior sempre com uma história de civilidade na ponta da língua. Ficam impressionados que nos museus americanos o visitante deposita o valor em uma caixa que fica ali, ao alcance de qualquer um, mas ninguém pega. Contam - impressionados - que na Áustria as padarias deixam o leite fora e as pessoas pegam e depositam as moedas em um pote, sem ninguém vigiando.

Mas cobram o fato de naquele local do zoo não haver um vigilante. É ISTO que quero chamar a atenção: educação não é um comportamento expresso diante de fiscalização, o nome disso é obediência. Educação é o comportamento do indivíduo quando não tem NINGUÉM olhando!

Por isso a Prefeitura de SP instalou mais uma centena de radares e câmeras de vigilância, porque o motorista só consegue se manter educado sob constante fiscalização. Porque não foi educado. Os motoristas/motociclistas mal e porcamente foram instruídos, quando foram... E os ciclistas nem isso!

Pela visão do jornalismo sensacionalista podemos perder a esperança em trânsito solidário sem que haja uma fiscalização opressiva e constante, como no zoológico. Não basta uma placa de proibido estacionar, precisa ter um fiscal. Não basta investir em passarela ou ciclovia, tem de fiscalizar. Não basta avisar que o leão é bravo, precisa colocar o braço lá dentro.

***

Uma última nota: essa semana ultrapassamos a marca dos 4.000 acessos ao blog. Fico feliz, e não posso deixar de agradecer a todos que visitaram nosso blog, prestigiando-o e possibilitando que expressivo número fosse alcançado. A todos vocês, meu MUITO OBRIGADO!!!!




Até a próxima!