"Carece de ter coragem"

Grande sertão: veredas - Guimarães Rosa

Dilma aos 22 anos

Viva a democracia!

Uma das obras que mais me encantou quando a li foi “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa. Talvez não pelo conteúdo em si, mas principalmente pelo estilo de linguagem empregada. Talvez essa magia de combinação de palavras feita por Guimarães Rosa tenha sido o motivo de ter me prendido tão atentamente à sua leitura. Achei-a fascinante. Não é à toa que a obra, segundo Jorge Fernando dos Santos, é o livro mais importante da literatura brasileira. Ainda na linha de análise desse jornalista, escritor e compositor, o livro é:

“Estudado em vários países devido principalmente aos requintes de linguagem de sua literatura, Rosa pode encantar o leitor também sob outros aspectos. Estudiosos de sua obra, leitores comuns e professores que trabalham Grande sertão: veredas em sala de aula devem procurar no texto não apenas as águas da superfície, onde se narra o enredo principal de aventuras, mas também as correntes mais profundas, nas quais habitam senhas e símbolos de diferentes escolas filosóficas e esotéricas. Longe da religiosidade oficial, o autor procurava dar um sentido profundo e oculto a tudo o que escrevia, fazendo de sua literatura um jogo que desafia olhares argutos. Não por coincidência ele foi um aficionado do xadrez e leitor de obras transcendentais relacionados a outras culturas.

Por essas e outras, os iniciados em Rosa são constantemente convidados (ou mesmo desafiados) a enxergar e a interpretar tais senhas e símbolos sob a luz da Alquimia, da Astrologia, do Hinduísmo, da Maçonaria, do Platonismo, do Taoísmo ou mesmo da Psicanálise.”

Pois bem, uma passagem também foi brilhantemente utilizada por outro jornalista, do blog "O cafezinho", Miguel do Rosário, para dar lustre a considerações sobre a campanha eleitoral. Exatamente o trecho onde Diadorim, personagem da obra, convoca seu parceiro Riobaldo a enfrentar o medo e desafiar a realidade, como mostra Miguel ao final do seu artigo:

Meu receio não passava. O mulato podia voltar, ter ido buscar uma foice, garrucha, a reunir companheiros; de nós o que seria, daí a mais um pouco? Ao menino ponderei isso, encarecendo que a gente fosse logo embora. “Carece de ter coragem. Carece de ter muita coragem…” – ele me moderou, tão gentil.

De tão brilhante a composição, e de tão pertinente, na minha opinião, achei conveniente transcrever a mesma, subsidiando minhas reflexões sobre o momento que vivemos, vésperas de eleição presidencial. Ei-la:

Carece coragem, moça, carece muita coragem!

Lula e Dilma apanham da mídia desde o dia em que pisaram no Palácio do Planalto. As redes sociais estão abarrotadas de todo o tipo de baixaria contra a presidenta. Há, inclusive, ameaças de morte.

A Folha deu cartaz a um sujeito que divulgava montagens fotográficas em que Dilma aparecia sob a mira de uma arma. Publicou matéria positiva sobre ele na edição impressa e o pôs na TV Folha, em programa exibido na tv aberta.

Uma empresa de São Paulo patrocinou a distribuição de cartilhas anti-Dilma na porta do Itaquerão, no dia da abertura da Copa do Mundo. No Estádio, milhares de pessoas, em especial aquelas situadas nas áreas VIP, vaiaram Dilma e a mandaram tomar no cu.

Blogueiros da Veja fazem, há anos, campanhas de baixíssimo nível contra a presidenta.

Você nunca viu a presidenta, em momento algum, reclamar de nada. Você nunca a viu dizer que a estão “perseguindo”. Os blogs que a apoiam, sim. Reclamam e protestam frequentemente contra o tratamento da mídia.

A presidenta, porém, se mantém altiva e firme.

Saiu há pouco uma nova abordagem do Manchetômetro(*), comparando o que se dizia do presidente FHC em 1998, e o que se diz da presidenta, hoje. A abordagem é uma resposta a acusações de críticos do manchetômetro, segundo os quais à imprensa cabe a função de contra-poder, e, portanto, a mídia fala mal da Dilma porque ela é presidenta. Não é bem assim. Em 1998, FHC era poder, era candidato a reeleição, e o tratamento era outro.

Os gráficos são eloquentes! A poderosa máquina midiática tenta triturar, há anos, a imagem de Dilma. gráfico comparativo

No entanto, você não vê Dilma chorando na mídia, protestando contra “boatos” ou “mentiras”. Ela enfrenta tudo de cabeça erguida. Nunca processou ninguém, como faz Aécio, nunca chorou, nunca se lamuriou.

Ao contrário, sempre afirma, quando perguntada, que prefere o barulho das críticas ao silêncio da ditadura. Bem diferente de Marina Silva, que hoje aparece na capa da Folha, do Globo e da Veja, no papel de vítima.

E por quê? Porque o PT e as redes sociais apontam incoerências em suas falas e em seu programa de governo.

Ora, isso é debate político! É democracia! Marina Silva vai entrar na onda da criminalização da política e tratar o contraponto às suas ideias como “ataques”?

Até agora, quem jogou sujo foi ela, ao afirmar, na sabatina da Globo, que o PT botou um ladrão na Petrobrás para roubar. Baixo nível! Marina deve tudo, absolutamente tudo, que conquistou ao PT. Ela foi eleita a senadora mais jovem do país com dinheiro do PT, e agora faz uma acusação irresponsável dessa, com base no que disse a revista Veja? Então o PT era bom para fazer a sua campanha de senadora? Era bom para lhe fazer chegar a ministra de Estado? E agora, que ela mudou de partido, e ambiciona o poder presidencial, o PT vira um partido de ladrão?

Marina quer o poder pelo poder? Ora, Dilma foi presa aos 22 anos. Foi barbaramente torturada. Na foto que abre o post, vemos uma jovem altiva, com uma expressão desafiadora, diante dos juízes militares. Ela não se fez de vítima nem naquela época, nem hoje, quando é atacada pelos mesmos jornais que apoiaram a ditadura que a torturou.

Dilma sabe que, para arrostar as dificuldades, é preciso coragem. Um líder não se vitimiza, justamente porque é líder, e precisa transmitir força, serenidade e, sobretudo, coragem aos mais fracos, àqueles que não tiveram as oportunidades que o líder teve. O Brasil ainda tem muita gente oprimida. Ainda tem um povo sofrido que precisa de lideranças valentes e generosas que o guiem, democraticamente, para um futuro melhor.

Marina Silva não é uma pobre coitada perseguida! É uma mulher que foi eleita a senadora mais jovem da nossa história. Foi senadora por 16 anos, sempre pelo PT. Foi ministra de Estado. É amiga de gente muito rica, como o dono da Natura, Guilherme Leal, e Neca Setúbal, dona do Itaú. Esta última doou R$ 1 milhão ao Instituto Marina, ou 83% de tudo que o instituto ganhou. R$ 1 milhão é mais do que a maioria dos brasileiros jamais ganharão durante uma vida inteira de trabalho.

Vive no apartamento de um homem muito rico, dono de postos de gasolina e fazendas no Mato Grosso e Pará. Tem apoio hoje da elite do país e da mídia. Está chorando por que? Porque alguns tuiteiros e blogueiros estão apontando suas incoerências? É com essa força que pretende ser presidente? No primeiro tuíte de Malafaia, mudou seu programa de governo.

Agora, diante das primeiras críticas nas redes sociais, aparece chorando nos jornais? Aonde ela pretende chegar com isso?

Em Grande Sertão Veredas, a obra-prima de Guimarães Rosa, há uma cena antológica, do primeiro encontro entre Diadorim e Riobaldo. Os dois ainda eram adolescentes. Riobaldo entra numa canoa dirigida por Diadorim, que atravessa um enorme rio, de águas perigosas. Já do outro lado da margem, os garotos topam com uma figura mais velha, que tenta molestá-los.

Diadorim consegue afastá-lo. Riobaldo fica apavorado, com a possibilidade do vilão retornar armado, ou acompanhado de comparsas. O trecho: Meu receio não passava. O mulato podia voltar, ter ido buscar uma foice, garrucha, a reunir companheiros; de nós o que seria, daí a mais um pouco?

Ao menino ponderei isso, encarecendo que a gente fosse logo embora. “Carece de ter coragem. Carece de ter muita coragem…” – ele me moderou, tão gentil.

Pois é, Marina. Ouça o velho Rosa.

Carece ter coragem. Carece de ter muita coragem....

(*) Manchetômetro: Página eletrônica criada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro que acompanha dia a dia o tratamento dos tres grandes jornais impressos aos candidatos presidenciais. Segundo eles mesmos, "O Manchetômetro é um website de acompanhamento diário da cobertura das eleições 2014 na grande mídia, especificamente nos jornais Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de S. Paulo, e no Jornal Nacional, da TV Globo. O Manchetômetro é produzido pelo Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP), grupo de pesquisas com registro no CNPq, sediado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O Manchetômetro não tem qualquer filiação partidária ou com grupo econômico."

A comparação citada no artigo transcrito pode ser acessada AQUI.




Até a próxima!