"A histeria que me cerca"

aviao militar russo

Viva a democracia!

Por vezes tenho a sensação de que a lógica não é bem do jeito que aprendi. Tenho visto pessoas, que se diziam democratas, falando em deixar o Brasil, acusando quem votou em Dilma de estúpido, defendendo apasseata pelo golpe militar divisão do Brasil em dois países, clamando por intervenção militar, embaralhando todas as minhas concepções de democracia e de análise. Complica tanto que até me perco na descrição. Por isso resolvi transcrever artigo publicado no Blog da Milly, pois aborda exatamente o que eu gostaria de fazê-lo, e assim não preciso ficar aguardando meu raciocínio voltar a funcionar. Eis o texto, reproduzido com autorização da autora:

A histeria que me cerca

Desde que a vitória de Dilma foi oficializada tenho escutado de amigos a frase "vou embora do Brasil". Para esses amigos "as coisas vão muito mal", e o Brasil escolheu "premiar a corrupção elegendo Dilma".

Com argumentos que passam por "não houve governo que não tivesse lidado com escândalos de corrupção, embora governos anteriores tenham mantido os crimes quase em sigilo ", tento mostrar a eles o quadro mais amplo. Mas não os convenço. "O caso da Petrobrás é uma afronta", dizem. "Passou de todos os limites, esse país está perdido, não tem mais jeito", emendam.

Digo que o caso da Petrobrás parece mesmo ser grosseiro, mas, para mostrar que existem escândalos há muitos e muitos anos, cito o caso da privataria tucana, todo documentado no livro do repórter Amaury Ribeiro Jr., e que teria nos assaltado em uns 100 bilhões de reais. Digo, para colocar as coisas numa dimensão comparativa, que o Mensalão que tanto os enoja desviou 55 milhões.

Continuo argumentando que nunca se investigou adequadamente as gravíssimas acusações que se referem à privaria tucana, muito menos as que tratam dos supostos desvios feitos pelo cartel público-privado que ficou conhecido como Tremsalão paulista e que teria se estendido desde a administração Covas, passando pelas de Serra e Alckmin; mas nessa hora eles já perderam o interesse e apenas conseguem perguntar: "Então você concorda com a corrupção?" Evito responder o que me parece óbvio: que discordo de toda a corrupção, e que são eles que parecem dar os ombros para as que jogam suspeitas sobre o PSDB.

Argumento então que pelo menos estamos podendo investigar a corrupção hoje e, quem sabe, com isso consigamos colocar fim em um esquemão que, é bastante provável, exista há décadas e décadas. Em seguida tento mudar de assunto para a falta d’água em São Paulo, mas o tema não interessa. Não querem muito saber disso, querem mesmo é falar dos escândalos que envolvem o PT. Não sabem de Mensalão Mineiro, não sabem quem é Azeredo, não entendem da relação entre a falta d’água em São Paulo e a negligência em relação à reforma do sistema de armazenamento que envolve o governo que há 20 anos administra o estado, e aliás não poderiam estar menos interessados nessas coisas. Querem Petrobrás e Mensalão e nada mais.

Perguntam: então você concorda com o que faz o governo do PT? Tento responder que concordo com muitas coisas, e discordo de muitas outras, mas se começo com "concordo com muitas" já não sou mais levada a sério, e não tenho tempo de listar todas aquelas das quais discordo, que passam pela negligência com a política ambiental, pela a falta de um compromisso para se enxergar o aborto como caso de saúde pública e tantas e tantas outras.

Houve um tempo em que eu escutava o que me diziam e depois falava das ações afirmativas lançadas pelos governos de Lula, como as Cotas e o Bolsa Família, e tentava explicar por que foram fundamentais para o Brasil crescer. Empolgada com o que parecia ser um ligeiro interesse deles, mandava matérias e relatórios por email, sugeria textos, recomendava livros. Talvez eu tenha alcançado sucesso com um amigo, mas apenas talvez e apenas com um.

E então percebi que estava exausta. Exausta de tentar mostrar e falar e provar – e, pior, de ficar me defendendo já que muitas das abordagens rapidamente deixavam se ser amigáveis para flertarem com o ofensivo. Amigos de verdade não exigem que fiquemos nos defendendo de crenças e ideologias, pensei.

Mais exausta ainda estava de escutar: "Você virou petista?", como se o mundo fosse essa dicotomia rasa com a qual tão bem a Igreja Católica – no caso da classe media/alta paulista – conseguiu nos infectar. E como se "ser petista" fosse um descalabro, uma desonestidade por definição.

Buscando respostas para tanta histeria e agressividade, entendi parte do choque de meus amigos: eu era um deles, pensava como eles, argumentava como eles e agora, com o novo discurso, estava mais confundindo do que explicando.

Entendo que na história das grandes revoluções não houve uma classe dominante que tenha aceitado passivamente a ascensão das classes mais baixas. E, porque já falei as mesmas besteiras que agora escuto, tento ficar repetindo o mantra de que "todos podem, um dia, ler o que li, ver o que vi e entender o que entendi". Não para necessariamente pensar como eu, mas para sair do ramirrâmi rasteiro e pouco abrangente que analisa um crime, ou outro crime, mas é incapaz de colocar as coisas em um contexto maior e falar de sistemas econômicos e de regulação de mercados, e do impacto que tem em nossa sociedade todo o arsenal midiático ser comandado por meia dúzia de famílias, e da necessidade da reforma política, e da reforma do sistema de financiamento de campanha, de leis que protejam o meio-ambiente, do papel criminoso das corporações para o aquecimento global – e de como todas essas questões são urgentes e teriam a capacidade de mudar ainda mais a cara do nosso país. Há no mundo hoje grandes pensadores que publicam textos e livros sobre esses assuntos, e cuja leitura esclarece, faz pensar e informa.

Só que uma tristeza enorme me invade quando penso que não conheço nenhum membro dessa elite que tenha uma biblioteca em casa, e por biblioteca digo apenas duas dúzias de livros. O que quero dizer com isso é que são pessoas que não leem nada além de manchetes no noticiário, de um ou outro best seller de John Grisham, e que jamais fuçarão David Harvey, ou Richard Wolff, ou Robert Reich, ou mesmo Adam Smith, o grande defensor do sistema capitalista, e alguém que, a despeito de algumas noções equivocadas, era a favor da regulação do mercado "desde que ela beneficiasse a classe trabalhadora", um trecho de seu discurso que foi convenientemente esquecido ao longo dos anos.

O fato de nossa classe dominante não ter a leitura como hábito é uma constatação tão triste quanto chocante e que explica muito sobre a falta de entendimento que demonstram quando o assunto é política. Sabem ver e comentar a corrupção vomitada no Jornal Nacional, mas não entendem o sistema, suas fraquezas, seus conflitos e tensões para poder pensar de forma original e colocar a corrupção – e tudo mais – em contexto. E, como tenho percebido, é muito difícil debater com pessoas cujos argumentos são tirados do Jornal Nacional e da Veja, e de mais lugar nenhum.

Essas são, em boa parte, pessoas que não entendem o ato de molhar a mão de um fiscal como crime de corrupção – ou veem crime em coisas como mandar uma graninha para ser guardada em paraísos fiscais ou sonegar. Para eles são coisas absolutamente distintas do político safado que rouba, e com isso se separam moralmente do criminoso político – nós de um lado, os corruptos, esses vermes, do outro.

A verdade é que nenhum deles viu os documentários que recomendei, ou leu os livros que sugeri, ou os textos que enviei. Não leram porque não têm o hábito e porque talvez não queiram entender que as respostas não estão no Mercado ou em outras verdades absolutas com as quais cresceram, e sim na distribuição de renda, numa sociedade menos desigual e em pouca coisa além disso.

Quando perguntam, quase ofendidos, por que mudei de ideia, minha vontade é dizer que eu estudei o assunto, que li relatórios do Bolsa Família e do Mais Médicos, que fiz cursos de economia e filosofia, que fui à fonte e aos maiores pensadores de economia, mas soaria arrogante, embora seja verdadeiro, e por isso não falo. E por diversas vezes quase dei a única resposta que gostariam de ouvir: "Estou sendo paga pelo PT para falar tudo isso". Tristeza maior está na certeza de que alguns de fato acreditariam.

Mas nem mesmo a falta de interesse intelectual é tão grave quanto a constatação que vem ao observar a reação de histerismo diante da vitória de Dilma: o abismo entre as classes. Nossa classe dominante está infectada de separatismo, tão imperialmente infectada que não vê classismo em frases como "sempre fui generoso com os mais pobres", ou "pago até a universidade do filho de um empregado". Para eles esse tipo de ação demonstra como são pessoas boas, e não como se consideram melhores, mais capazes e distintos.

Dar um aumento ao funcionário para que ele mesmo pague a faculdade do filho não é ideia legal, me dizem, porque o funcionário talvez fosse fazer outra coisa com o dinheiro e nós sabemos que isso seria ruim para o funcionário e para seu filho. Sendo assim, eu que sei mais das coisas, decido o que fazer com o dinheiro extra que generosamente dou a ele e à família dele – dinheiro que aliás é frio e precisa ser esquentado, o que vem a calhar. Não veem o discurso preconceituoso desse tipo de atitude, e muito menos o atrelamento de "favor" que o ato implica já que aquele funcionário para sempre se sentirá em dívida.

Meus amigos também não leram o email no qual eu explicava que quase dois milhões de famílias já abriram mão do Bolsa Família por "não precisarem mais dele". É uma atitude com a qual não estão preparados para lidar – até porque em nossa classe social feita de chiques e finos, o equivalente seria a filha do militar, ou a filha do juiz que, depois de conseguir um bom emprego e mesmo sem se casar, abrisse mão da pensão que o contribuinte – você e eu – dá a ela.

O dinheiro vem do mesmo lugar que vem o do Bolsa Família, mas com esse benefício aí ninguém nunca se preocupou. Não se tem notícia de um caso como o da filha do juiz que tenha aberto mão do benefício alegando "já não preciso mais dele" como fizeram esses quase dois milhões de heróis que recebiam o Bolsa Família – embora ninguém possa afirmar que não exista um caso assim. É como a mula sem cabeça: nunca foi vista, mas quem sabe esteja por aí?

Talvez precisemos de mais do que uma geração para que as classes dominantes relaxem e entendam que a ascenção social dos menos privilegiados é boa para o Brasil, para a economia e para todos nós enquanto seres humanos. Para que percebam que não existe um golpe comunista em andamento, que não haverá venezuelização – embora muitas das coisas feitas por Hugo Chavez sejam lindas e devessem ser celebradas, mas sobre elas não se sabe porque tudo o que a imprensa divulga são fotos de uma suposta fila para comprar papel-higiênico em Caracas – e que nada faz mais mal a todos nós do que o preconceito.

E, infelizmente, precisaremos de mais de uma geração para que entendamos que não há distinção entre seres humanos, que somos uma mesma raça, a raça humana. Há, claro, os que ganham mais, os que ganham menos; os que tem propriedades, os que não têm, os que têm muito poder, os que têm pouco ou nenhum poder, os que dão ordens, os que recebem ordens, os que têm a pele mais clara e os que têm a pele mais escura – mas a raça é uma só.

O que precisa mudar são as equivocadas noções de que essas seperações dizem que alguns são melhores do que os outros, e que a prova de que sou boa pessoa e não sou preconceituosa é o fato de eu ser capaz de ser "generoso" com os "mais simples".

Precisamos lembrar que houve donos de escravos que eram bons e generosos com seus escravos, que criticavam os senhores que tratavam mal seus escravos, e não os vestiam decentemente, muito menos os alimentavam decentemente. Andavam por aí exigindo que se tratasse de forma digna o escravo, julgando-se pessoas boníssimas e generosíssimas porque estavam, afinal, pedindo que se tratasse o escravo com dignidade — mas eram ao mesmo tempo incapazes de perceber que a verdadeira crueldade estava no sistema que eles teimavam em manter e não exatamente na forma como o escravo era tratado.

Hoje entendo que alguns desses meus amigos são pessoas tão profundamente adoentadas de preconceito que sequer percebem como ele predomina nas justificativas que dão e nas coisas que dizem. E a grande crueldade do preconceito é que ele é uma doença que infecta um mas mata outro.

Agora quando me dizem "vou embora do Brasil" não argumento mais nada e respondo que acho uma ótima ideia. Ver o Brasil de longe, escutar o que dizem do Brasil lá fora, respirar novos ares, ser ‘latino’ em terras gringas. Realmente não vejo mal nisso se a pessoa tem condições de se sustentar. Eu mesma estou passando um tempo fora do Brasil e a experiência é sempre boa.

Mas quando me dizem isso recomendo que não abram mão da cidadania brasileira porque talvez, se continuarmos a diminuir a desigualdade com ações afirmativas e investimentos sociais, e a investir em educação, os filhos desses meus amigos tenham um país do qual se orgulhar – e para onde quererão voltar.





Até a próxima!