"Terror em Paris"

Jornal após atentado

Situação da frente do jornal após o atentado

Tenho a honra de transcrever instigante artigo de Renato Gama, abordando o sangrento ataque à sede do jornal francês CHARLIE HEBDO. Vamos ao texto:

Terror em Paris

Renato C. Gama

Nada justifica o brutal e covarde ataque terrorista ao jornal satírico francês “Charlie Hebdo” (CH ) no dia 7 de janeiro em Paris, reivindicado pela Al-Qaeda. Mais de 14 pessoas foram mortas e a consternação teve dimensão planetária; multidões nas ruas, pessoas nas redes sociais e mídias corporativas apoiaram o trabalho dos jornalistas e cartunistas mortos com a frase “Je suis Charlie”. Depois, começaram a aparecer manifestações midiáticas com o posicionamento contrário: “Je ne suis pas Charlie”.

A razão presumível do ataque estaria na representação caricatural e jocosa do fundador do islamismo, o profeta Maomé (Mohammad, “o mais louvado”, 570-632 d.C.). Fundamentalistas islâmicos não admitem qualquer representação imagética ou escultural do que consideram sagrado. Segundo a tradição islâmica, o próprio Deus ditou o Alcorão ao Profeta. É atribuído a Maomé o seguinte dito: “Os anjos não entram em uma casa em que haja um cão ou uma representação figurada” (Sahih Al-Bukhari). Entretanto, esta questão é muito relativa no Islã e houve, ao longo dos séculos, muitas idas e vindas. Noutras palavras, dependendo da interpretação do Alcorão, se mais aberta ou fundamentalista, das seitas e do país, se teocrático ou não, muda o posicionamento.

Ainda sobre este ponto, parece-me que uma questão crucial é a forma depreciativa e desqualificadora que os cartunistas representam o Sagrado. Lendo sobre o tema, deparei-me com uma imagem de capa de um dos números do C H em que a Santíssima Trindade (base do dogma cristão) era representada de forma pornográfica. A imagem é tão agressiva e abusiva que eu não teria coragem de descrevê-la ao meu amigo mais íntimo. Pergunto: é necessária tamanha baixeza para fazer humor? Em nome da liberdade absoluta de imprensa, os jornalistas e cartunistas do C H tinham (ou continuam tendo) o direito de tripudiar sobre a fé alheia? Francisco, o Bispo de Roma, dando uma entrevista em sua viagem de peregrinação ao Sri Lanka e às Filipinas, afirmou: “se um grande amigo fala mal da minha mãe, ele pode esperar um soco, e isso é normal. Não podemos provocar, [...] insultar a fé dos outros, [...] ridicularizar”. De acordo com recente pesquisa, 42% dos franceses são contrários à publicação de charges de Maomé. Portanto, m esmo que o atentado seja injustificável sob qualquer ponto de vista , o CH atraiu raios para si.sede do jornal

A França hoje, à exceção da Turquia e da Rússia, é o país europeu com maior número de islamitas: de 8 a 10%, de uma população de 65,4 milhões de habitantes. Na segunda metade do século passado, de 1956 a 1977, 20 países africanos tornaram-se independentes da França, desmantelando, assim, o império colonial francês. A guerra da Argélia foi uma das mais sangrentas. Daí o processo de imigração de africanos para o território gaulês. Agora, tais imigrantes transformados em cidadãos de segunda ou terceira categoria, além da sua fé islamita, tornam-se um problema para os “franceses puros”. O que esperar disso, sobretudo após o ataque ao CH ? Provavelmente um perigoso crescimento da extrema-direita polarizada pela “Frente Nacional” de Marine Le Pen, particularmente nas eleições presidenciais de 2017. Segundo entrevista da historiadora francesa Maud Chirio, a situação é muito grave neste dramático momento histórico de um dos berços da civilização mundial.

Não somente na França, mas em todo mundo, o que está em jogo é a convivência “tolerante” ou pacífica entre os adeptos das várias religiões e também daqueles que não têm fé, pois qualquer tipo de fanatismo pode levar à violência, sobretudo o de caráter religioso. Mais que isso, a necessidade do diálogo inter-religioso, único caminho para a paz entre as várias tradições religiosas.

Por fim, duas perguntas: a tão cara liberdade de imprensa na democracia formal pode ser infinita (no finito) ou deve ter algum limite? Se deve, como engendrar isso, com o cuidado de não cair na odiosa censura prévia dos regimes ditatoriais?

(*) - Renato C. Gama é mestre em Ciências da Religião pela PUCSP.

rcgamavix@yahoo.com.br





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