Miquinha e familiares

VOVÓ MIQUINHA

E

SUAS HISTÓRIAS


Organização:

Ana Lucinete Gasparini

Vitória, Espírito Santo

Julho de 2014




PESSOAS QUE COSTUMAVAM CONTAR HISTÓRIAS:

NENEL: Homem que morou uns tempos na casa de papai. Depois ele foi morar na Ilha.

AFLORDÍZIO: Construiu o sobrado.

COMADRE JOVEM: Amiga de infância



AS HISTÓRIAS


Um dia, o burro vinha carregado do morro e tinha uma pedra alta. O burro escorregou e foi parar lá embaixo. Foi um susto tremendo!

Tivemos um trabalho danado para levantar o burro com a cangalha e ainda colher as bananas que ficaram espalhadas e colocar de volta no balaio.

*cangalha: é um artefato que se coloca no lombo dos burros para pendurar carga

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Zé Baiano tinha um filho que ele mandava ir à venda comprar cachaça. O menino chegava com um pouquinho só na garrafa.

Quem vendeu prá você? Seu Duca? Então vamos lá.

No caminho, o menino andava e ia lá e vinha cá. Aí ele descobriu que o menino mesmo que tinha bebido.

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Havia na Ilha um homem que era um beberrão.

Um dia ele chegou bêbado em casa e quis bater na mulher.

A velha expulsou ele de casa. Ele saiu, mas parou na esquina e ficou cantando:

“Quando eu vim, lá de Pelotas

O navio para o norte emproou

Adeus, adeus

Deocleciana me deixou.”

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Certa vez um homem apareceu aqui e pediu auxílio (agasalho). Carolo deu janta e ofereceu o barracão para ele dormir.

Ele foi para o barracão, olhou e perguntou pelo colchão. Se Carolo não havia levado.

Carolo ficou muito picado!

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Havia uma patroa que tinha uma empregada.

Todo dia, ela mandava pegar água e a empregada não ia. E ela acabava batendo na empregada.

Até que um dia a patroa falou: “Já mandei você pegar água?”

Ela foi, mas no meio do caminho ela pensou: “Mas tá faltando alguma coisa!”

“Você não trouxe a água? Vá buscar!”

“Já vou, patroa!”

Até que a patroa perdeu a paciência e deu uns tapas na empregada.

“Agora eu vou!”

E lá se foi ela buscar a água feliz da vida!

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Quando nós éramos crianças, mamãe saiu da Ilha às sete horas de barco e chegou às duas horas em Barra de Mangaraí, em casa de tia Lina. Ficaram dois dias lá e depois foram para a casa de vovó em Itapocu. Ficaram quatro dias e voltaram de ônibus.

Tia Ida me contou que eles iam de trem para Itapocu. Quando o trem parava na estação o garoto ficava gritando: “Itapo... Itapo...”

Uma senhora se encheu com o menino e perguntou alto: “Itapo o quê, menino?”

O menino, no mesmo tom, respondeu:

“O cu minha senhora!”

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Certa vez, eu e Carolo fomos ao Baracho*. Quando chegamos no pé da pedra, vinha um homem com um facão na mão. Com a gente iam dois cachorros, que quando viram o homem deram em cima dele para pegar. Ele tirou o facão da cintura para acertar os cachorros e se defender.

Carolo pegou a espingarda, mirou e falou:

- Se você bater no meu cachorro, eu te meto o tiro! Passei um aperto danado, naquele dia.

*Baracho: Sítio vizinho pertencente aos primos de Carolo. Fica no alto do morro.

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Augusto quando era do tamanho de Bernardo (uns 8 anos) o padrinho dele deu uma cabrita.

Ela foi correr, caiu e os cachorros de Dadi pegaram. Foi uma vez só!

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O que eu criei na mamadeira certa vez foi uma cabritinha.

Uma vez ela estava na pedra e os cachorros lá de Tabuazeiro deram em cima dela. Ficaram num pega-pega danado! Eu, quando vi aquilo, caí na besteira de gritar o nome dela: “Bebé!”

Nisso ela parou para olhar para mim e eles a pegaram.

Ai que pena!

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Os pais de mamãe falavam alemão. Mamãe também falava, mas eu não aprendi. Vovô e vovó falavam entre eles só em alemão. Ele chamava ela de mamãe e ela o chamava de papai.

Ele tinha um papagaio que também o chamava de papai. Na hora do almoço ela o mandava ir chamá-lo para almoçar.

Ele dizia: “Papai, almoçar.”

Um dia, vovô foi passear, o papagaio fez arte e levou uma surra da vovó. Quando vovô chegou ele foi esperar lá no portão para fazer queixa: “Papai, me bateram! Papai, me bateram!”

Em uma viagem à Alemanha, a passeio, ele demorou e o louro ficava na empanada*, onde sempre esperava por ele, e ficava perguntando: “Mamãe, cadê papai? Mamãe, cadê papai?” Até que ele morreu. Morreu de saudades.

*Empanada: portãozinho de madeira que ficava na porta, para evitar a entrada de criações e a saída de crianças muito pequenas.

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Quando eu era criança (deveria ter uns três anos) mamãe me levou para tirar foto. Fomos eu, Dadi e Odeth. Quem disse que eu fiquei! Chorei, mamãe me beliscou, me bateu...

Papai foi numa loja ao lado e comprou uma bonequinha prá mim. Aí mandaram eu passar talco nela e tiraram a foto. Mas antes eu levei um monte de beliscão!

Odeth e Valdir tiraram a foto juntos e eu sozinha, com a cara toda vermelha.

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Para o meu casamento não havia a certidão de nascimento. Carolo pediu ao pai dele para pegar a segunda via. O cartório de Mangaraí trocou as datas: ao invés de vir 20 de março, colocaram 11 de março.

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O juiz de Mangaraí não bebia nem um pouquinho!

Mamãe contava que ele, montado na égua dele, entrava por uma porta e saía por outra. Então dá para saber como vinham os nomes.

Ele colocava os nomes todos errados. Mamãe queria Oswaldir veio Waldir.

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De doze para treze anos nós fomos desfilar na cidade em sete de setembro.

A lancha de carne veio nos buscar aqui na Ilha. Eu fui na frente, com a bandeira. Eu, Nair Jantorno, Lizete e Wanda . Fui toda posuda, carregando a bandeira. A professora fez a bandeira de murim bem fininho, pintou, e ela ficou bem bonita.

E eu carregando a bandeira.

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Lancha de carne
Desfile da Independência,
no centro da cidade.

Desfile
Eu, Nair, Lizete e Wanda logo atrás.

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Quando ainda não tinha estrada, mamãe pegou a canoa aqui na Ilha até Santo Antônio, num cais que tinha antes do Cais do Avião. Quando chegamos lá, tinha um menino tomando banho só de cueca.

O guarda o prendeu e o levou para a delegacia. O menino pediu para pegar a roupa e o guarda não deixou. Ele foi implorando pelo caminho, com um sotaque carregado: “Deixa eu pegar minha /r/roupa! Minha única /r/roupa!”

E o guarda intransigente: “Que roupa, que nada!”

“Por favor, minha /r/roupa, minha única /r/roupa!”

E lá se foi ele, só de cueca para a delegacia.

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Certa vez, Hilda, que era lavadeira do RACING, colocou os calções quarando na pedra para bater no outro dia.

Naquele mesmo dia deu uma chuva forte e encheu os calções de lama.

Coitada! Eu morri de pena dela! Teve que lavar tudo de novo!

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Eu e Wanda estudávamos juntas e sentávamos numa carteira só. Naquele tempo não havia mesa. Era um caixote com um banquinho.

Eu em matemática era boa, mas para escrever tinha dificuldade.

Então quando chegava em casa, copiava dela.

Quando tinha treze anos, tinha que ir para Santo Antônio, fazer a quinta série. Lizete, Wanda, todas pequenininhas (com oito nove anos) e eu aquela cavalona no meio delas! Falei com mamãe que não queria ir e ela concordou. “Então vamos para a fonte!”

E eu fui prá fonte.

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Papai saía de casa por volta das 4 horas da manhã para a venda e ficava por lá. Só voltava à noite (8 ou 10 horas). Até o dia que ele pegou um galão de 200 litros de querosene (naquela época se usava muito querosene) e se sentiu mal. Antônio Sete Voltas, que já o ajudava, mandou que ele viesse embora e ficou tomando conta da venda. Daí em diante ele só piorou.

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Quando madurava muita banana, meu sogro mandava um monte de bananas e uns cinco ou seis quilos de açúcar.

Já pensou mexer aquele monte de açúcar?!

Ainda bem que tinha Aflordízio, que dormia lá em casa e nos ajudava a mexer.

Nessa época, Aflordízio, pai de Didi, estava construindo o sobrado na Ilha.

Depois de feito o doce, espalhava na mesa, cortava, passava no açúcar e embrulhava. Papai vendia na venda.

A venda era uma casa de estuque e as pessoas deram para roubar as mercadorias. Foi aí que papai fez o sobrado!

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Dadi tinha um trabalhador que se chamava Waldir, mas colocaram o apelido dele de Futuca.

A mesa lá em casa era grande e ele sentava sempre na cabeceira. Ele em uma e mamãe em outra.

Quando ele queria alguma coisa, ele falava: “Passa essa onça!”

Não era capaz de dizer o nome da comida: arroz, feijão, carne,... Só essa onça.

traco separadorMamãe fez um vestido com um monte de bichinhos na barra para Wanda.

O finado Antônio de Anita, um nortista alegre que havia na Ilha, falou:

_ Dona Aninha, encontrei sua filha com um monte de besouro atrás dela. Ela ia numa carreira e um monte de besouros atrás dela!

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Hilda estava namorando um jovem. Ele foi para o quartel e de lá, designado para trabalhar em Colatina. Lá ele conheceu uma moça e noivou com ela. Hilda soube e colocou a boca no trombone.

A polícia então, o mandou voltar para se casar com Hilda e consertar o mal que tinha feito.

Na saída do cartório ele disse: “Era isso que você queria? Então aí está!”

Ele voltou no mesmo dia para Colatina, mas não podia mais se casar com a moça que ele era noivo.

Ele foi então, para a cabeceira da ponte e deu dois tiros no ouvido.

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Emília, minha madrinha, criou dois urubus: Pedro e Baiano. Eles viviam no quintal dela. Mas um dia eles voaram com outros urubus.

Ela chamava: “Pedro! Baiano!” e eles vinham comer.

Até que um dia eles sumiram de vez!

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Acharam uma coruja no ninho da chácara de finado Manduca e trouxeram para eu criar. Eu tinha uns 10 ou 12 anos.

Quando ia anoitecendo ela ficava: “Chiááá!” Pedindo comida.

Aí a gente catava barata para ela. Ela comia barata ou carne verde. Eu cortei a asa dela para ela não ir embora, ela foi voar, bateu no chão e morreu.

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O macaco de mamãe era muito sem- vergonha! Carregava os ovos e pegava as coisas.

Um dia mamãe colocou os óculos em cima da mesa e depois ficou procurando. Quando pensa que não, ele estava em cima da árvore com os óculos na mão.

Tinha um córrego que os porcos iam tomar banho. Ele ficava vigiando. Quando os porcos vinham, ele pulava em cima deles até o córrego e ficava esperando. Quando eles iam embora ele pulava de novo. Só andava montado!

Eu tinha um sagui que, quando anoitecia, ele se escondia debaixo de meus cabelos. Quem quisesse levar uma dentada, tentasse pegá-lo. Eu podia pegar e colocá-lo onde quisesse. Mas ninguém mais podia fazer isso.

Um dia chegou um pessoal da Ilha e falou: “Eu, heim! Criar um animal desses em casa!”

No outro dia ele amanheceu morto.

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Zetinha e Waldemar com uns 12 anos começaram uma briga. E lá em casa tinha uma faca quebrada. Começou a briga e Zetinha passou a mão na faca e falou:

_Vem que eu te mato!

Deu um trabalhão para desfazer a briga.

Hoje a gente ri, mas no dia foi um Deus nos acuda!

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Quando Zetinha tinha uns 4 anos, eu estava fazendo jenipapina e ela do lado pedindo. Eu me aborreci e dei.

Ela virou o copo e falou: “Êta, chachaça boa!!!”

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Já Augusto com 3 ou 4 anos ficou pedindo e eu falei: “Você quer né?”

Coloquei um pouquinho de álcool no copo para ele ver que não era bom.

Coitado! Quase matei meu filho!

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Teve uma época que Carolo passou a fabricar tijolo. Fazia os tijolos, mas não tinha como entregar, pois aqui ainda não tinha a estrada.

Papai, então, mandou abrir o valão para escoar os tijolos.

Quando a maré enchia, eu e Hilda passávamos a redinha e pegávamos camarão, manjuba, beré, pitú (cada pituzão deste tamanho!)

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Bento veio da Bahia com uns 13 ou 14 anos. Veio fugido num navio. Foi quando ele ficou no mercado e Dadi perguntou se ele queria vir trabalhar no sítio.

Depois, ele ficou trabalhando com Dadi, com uma única roupa. Mamãe logo arranjou roupa para ele.

Depois ele foi pescar e passou a viver na Ilha. Arrumou uma namorada (Nilza) e acabaram se casando.

No dia do casamento, Zetinha tinha uns 7 anos e era pra frente que só ela!

Tinha um licor azul em cima da mesa, e no final, chamava por ela para ir embora e nada. Ela não saía do lado da mesa.

No outro dia, Zetinha disse: “Eu tô mijando azul!”

Ficou apavorada. Mijava de um lado, azul! Mijava do outro, azul! Até descobrir que era o tal do licor azul que ela se inteirou nele!

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Uma vez mamãe falou: “Miquinha, vai com Valdemar buscar as cabritas!”

Lá fomos nós! Subimos na Volta da Pedra, rodamos tudo e não achamos as cabritas. Fomos achar lá no seu Godofredo.

O medo eram as vacas dele, que ficavam no pasto.

Eu tinha muito medo de vaca!

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Mamae e o jacaré
Mamãe com Mariquinha no colo

Mamãe morava na nossa casa e tinha um compadre que morava nas redondezas.

Ele tinha uma horta e perto dali tinha um ninho de jacarés. Ele não podia entrar na horta que os jacarés atacavam e botavam ele para correr.

Mamãe então, tratou logo de pedir uns dois ovos para ver se conseguia chocar em casa.

Ele trouxe três e ela colocou numa lata de querosene com café em grãos, por perceber que era um local quente.

Oito dias depois ela foi olhar e viu que tinha um ovo por cima dos grãos. E ele estava quebrado.

Ela reclamou, e achou que alguma galinha tivesse ciscado e quebrado o ovo.

Dadi estava perto. Ela estava falando das galinhas quando pensou que não, um jacarezinho saiu do ovo.

Ela levou um susto tão grande que jogou o jacaré em cima do Dadi.

Nisso ela percebeu que o outro também estava trincado, e um ovo gorou.

Ela colocou eles numa lata de querosene aberta ao comprido. Não deu certo! Aí mandou fazer uma canoa (o pessoal da Ilha fez) e deu certo.

Nós pegávamos barrigudinho para eles comerem. Todo dia a gente tinha aquela obrigação: catar comida para eles.

À noite, ela fechava um espaço com caixotes para eles terem mais espaço.

Mariquinha era mais dócil. Zezinho já era mais rebelde. Quando eles se escondiam embaixo da cama dava o que fazer para pegar.

Depois de um tempo, mamãe mandou fazer um tanque e eles passaram a viver lá.

A primeira vez que Mariquinha colocou ovos, ela colocou trinta de vez. Um a um!

Só que ele comeu todos.

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Quando ela começou a fazer ninho de novo, mamãe mandou separar.

Quando os bichinhos nasceram, ele comeu tudo!

Às vezes eles fugiam. Quando chegava alguém para visitá-los , a gente soltava. Só Mariquinha! Zezinho era mais difícil para prender depois. Tinha uns japoneses que toda vez que vinham em Tubarão (Arcelor Mittal), vinham ver os jacarés.

Um dia saiu todo mundo para o Convento da Penha e a casa ficou sozinha. Vieram umas pessoas e mataram a Mariquinha.

Maior tristeza nós tivemos quando chegamos e a encontramos debaixo de pedras e paus.

Depois da morte da companheira, Zezinho ficou mais arredio ainda. Então não era mais solto. Ficava direto no tanque.

Um dia, deu uma chuva bem forte e a parede do tanque quebrou e ele fugiu. Deu um trabalho danado para pegá-lo de volta. Amarraram a boca dele e o rabo (que era muito forte a rabada) e colocaram sobre uma tábua para trazer de volta ao tanque.

Quando nós mudamos para a casa nova (depois da partilha) eles vieram conosco. Nessa época, estavam urbanizando o bairro e o senhor Marlúcio mandou construir um tanque novo para ele. Teve festa para inaugurar o tanque com direito a flores e fita cortada.

No dia que ele morreu, eu passei e falei com ele. Como fazia sempre que passava no tanque. Percebi que ele nem se mexeu. Peguei um pau, futuquei e vi que ele estava morto. Saí numa choradeira só!

Carolo estava na quitanda e levou o maior susto, pensando que fosse o primo dele que morava no Baracho, e se chamava Zezinho.

O jacaré morreu com cerca de sessenta anos e foi enterrado numa parte do sítio. Somente mais tarde, pensou-se em fazer o empalhamento, mas aí, já era tarde demais!

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Vamos ver se você adivinha, qual destas sou eu!
Miquinha e Dadate

Um dia nós fomos à parada de sete de setembro. Quando nós voltamos (eu, Odeth Gasparini e Dadate), na rua, encontramos uma moça com um vestido muito bonito. Na hora que eu estava explicando como era o vestido, o retratista bateu o retrato.

Dadate estudava perto do palácio (Escola Normal), viu a foto e comprou. Nós nem vimos quando ele tirou a foto. Eu até estou com a mão mostrando como era o vestido.

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Uma vez nós fomos à Camburi passear à cavalo. Foi a turma toda!

Eu pedi um cavalo bem manso por que eu tinha muito medo. Finado Basílio me arranjou um cavalo muito tranquilo. Lerrrdo!

A turma foi na frente e eu fiquei prá trás com o cavalo lerdando.

Bem na curva da morte veio um carro. Eu comecei a gritar feito louca.

Aí Manduquinha voltou e pegou na cela e eu fiquei mais calma.

Mas passei uma vergonha!

A cavalo com Ary, Zezinho e Carolo Eu a cavalo
Carolo, Ary, eu e o finado Joãozinho
num passeio ao Campo de Aviação

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Da Volta da Pedra prá cima, morava o irmão de Seu Arthur.

Ele tinha um filho que se chamava Milton, mas ele chamava o filho de Mirtu.

Eles criavam uma cabrita. Um dia a cabrita caiu numa fenda da pedra e não conseguiu sair. Ele amarrou o Mirtu numa corda e desceu a corda na fenda.

A corda descia e ele perguntava:

“Tá chegando Mirtu?”

“Já pegou Mirtu?”

“Mirtu, você já amarrou a corda na cabrita, Mirtu?”

“Vou puxar, heim, Mirtu?”

“Já tô puxando, Mirtu!”

“Oh, Mirtu, como tá a cabrita, Mirtu?”

“Ela tá bem, Mirtu?”

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Em outra ocasião, numa pedra da casa de Dadi prá cima, uma cabritinha que eu criava, ficou presa. Não conseguia nem subir, nem descer.

Carolo pegou uma corda, amarrou Zetinha pela cintura e ela desceu para pegar a cabrita.

Naquele dia eu fiquei num nervoso danado, não quis nem olhar!

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Era tempo de São João e papai deu uma caixinha de bombinhas para Manoel.

Ele jogou a caixa inteira no fogão à lenha.

As bombinhas estouraram e ele saiu gritando: “Papai, pou, pou, pou, pou!!!”

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Mamãe disse que quando eu nasci eu era tão pequena, que a touca que ela usava em mim era uma meia.

O nariz era colado na cara, torto e deu trabalho para consertar.

Ela desconfiou que na época que eu estava para nascer, ela se encostou na cerca para pegar umas mexericas e caiu. Talvez por isso que eu nasci assim!

Eu tinha a cara tão pequenininha que eles diziam que eu parecia um mico, daí ficou: MIQUINHA.

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Eu tinha um irmão que com três anos ele adoeceu. Deu uma roncadeira nele que não passava.

Mamãe levou ele na Santa Casa e o médico passou uma injeção para comprar.

Chegando na farmácia, o farmacêutico disse que o remédio não era para aquilo, mas ela aplicou assim mesmo.

De noite ele não aguentava mais de dor. Até na parede quis subir!

Lá pelas três horas papai saiu para procurar um médico.

Mais tarde, como papai não voltava, mamãe saiu com ele, para socorrê-lo.

Quando chegou em Inhanguetá o menino já estava morto. Mamãe jogou para seu Nenel e disse: “Não adianta mais!”

Quando eu e Albertina vimos eles voltando, fomos contentes recebê-los e tivemos a notícia.

Ai que tristeza!

No outro dia mandaram que levassem os mais novos para vacinar que era perigoso. Morreu de crupe!

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Gozado foi Ary! Na hora de tomar a vacina não queria deixar de jeito nenhum! Corria por baixo da mesa, passava pro outro lado. Deu o que fazer para ele deixar aplicar a vacina!

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Lembro quando papai mandava uns dez quilos de trigo para a gente fazer biscoito, pão, bolo, para ele vender lá na venda. A receita era:

Tinha uma saída que só vendo! Tudo que mandava para lá, saía. Até aquelas linguiças de sangue que mamãe fazia, papai pendurava lá, e ele vendia! Mamãe ficava picada porque ela mandava laranja bahia, escolhia as grandes que era para ele chupar, e ele botava tudo para vender! Ah, mas ela ficava picada!

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Seu Florêncio era um homem que morava na Ilha. Ele só vivia alinhado: terno branco e em cada dedo um anel. Quando ele se aborrecia com alguém, ele dizia: “Eu te meto os anéis!”

Ou seja, daria um soco na pessoa.

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Certa vez, eu e Chiquinha (ela morava aqui em casa), numa quinta-feira maior, apareceu um guaxinim bem atrás da casa. Sentinela (uma cachorrinha que nós tínhamos) correu atrás dele e eu e Chiquinha ficamos gritando: “Pega, pega!”

Eles subiram o morro e nós atrás gritando. Até que pegaram. Então viemos, eu e ela. Uma segurando pelo rabo e a outra na cabeça. Trouxemos para casa em plena sexta-feira da paixão!

Depois é que vimos o pecado que nós fizemos!

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Lá em casa tinha um murinho que separava a sala da varanda, e tinha uma janela.

Eu sentava naquela janela, colocava o travesseiro no colo e ficava amarrando.

Às vezes eu vinha da escola, e vinha aquela turma comigo. Vinham todas para aprender a amarrar. Vinha Nêga, Eloar Santana, Eloar Muniz, Nadélia...

Eu sei que quando dava umas duas ou três horas, Nadélia largava a toalha e falava: “Vou catar ovos!”

Pegava a cestinha e sumia para pegar ovos.

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Um homem estava cuidando de um animal que estava cheia de bicho Quando passou um compadre e lhe cumprimentou.

_Bom dia compadre!

_Bom dia!

_ E como vai a comadre?

_Tá de bicho assim!

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Dadi me deu um leitãozinho. Cuidei do leitãozinho e quando ele estava gordinho Carolo foi na Ilha e trocou por uma porca magra que só tinha pele e osso. Então eu falei: “Essa porca é minha!”

Passados uns dois meses, Carolo foi pro Sapê. Toda segunda-feira ele ia levar o gado. Levar e trazer. Quando ele chegou em casa, falou: “Troquei a porca!” _“Em quê, Carolo?” _ “Pelo cavalo!”

Um cavalo maaagro!!! Então eu falei prá ele: “Esse cavalo agora não sai daqui! Ele é meu! E o nome dele é vencedor!”

Tadinho, o bichinho era magro, mas era bom. Carolo montava nele, dia de segunda-feira e ia pro Sapê. Chegava lá, Nilton com aquelas bestas dele, bonitonas, gordonas, falava: “Carolo, laça aquele boi ali!”

Quando o boi puxava o cavalo, ele empacava o boi e não saia do lugar. As bestas, o boi carregava prá onde queria. Era o preferido para laçar os bois.

Eu falei que aquele não ia sair daqui. Ficou com a gente até que ficou velho.

Um dia, Carolo chegou do Sapê, soltou ele, ele foi pro morro e no outro dia não apareceu. Carolo foi procurar e o encontrou morto. Carolo acha que ele cochilou em pé e bateu a cabeça em uma pedra. Ele já estava velho e ficava cochilando. Então, deve ter dado uma dessas cochiladas e caiu.

* Sapê: Local em que o gado era levado para pastar. Ficava em Carapina.

* Nilton: Amigo de Carolo e pai de Robinho. Tinha gado e era companheiro dele nas idas e vindas com a boiada para o sapê.

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FÁBULAS


A onça e o veado resolveram fazer uma casa.

Então a onça começou a fazer o trabalho. Limpou o terreno e deixou lá para continuar depois.

No outro dia o veado passou, viu o terreno limpinho e falou:

_ Tupã está me ajudando!

Arrumou a madeira, começou a construir a casa e depois foi descansar.

A onça chegou e se alegrou por sua casa estar tão adiantada. Colocou o telhado, finalizou a obra e saiu.

O veado chegou:

_Vou repartir a casa ao meio: um lado para mim e outro para tupã que tanto me ajudou!

A onça chegou e tomou um susto com o veado:

_ Ô cumpadre, você por aqui?

E perceberam o que havia acontecido.

A onça pensou: “Vou tocar o compadre daqui!”

Foi no mato, caçou um veado, levou para a casa e ofereceu ao veado para comer.

_Eu não vou comer o meu companheiro!

E ficou quieto pensando o que iria fazer.

No outro dia, ele falou que ia ao mato caçar e que o almoço seria por sua conta.

Saiu pelo mato e encontrou uma onça morta. Deu um duro danado para carregar para casa.

Quando a onça viu que era uma outra onça, deu no pé. E o veado com medo que a onça voltasse também fugiu. Ficando a casa para ninguém.

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A coruja e o bem-te-vi fizeram uma aposta: Quem conseguiria ficar mais tempo sem comer.

Bem te vi sempre que passava um mosquito, comia e dizia para disfarçar: “Quase caí!”

A coruja dizia “‘Guênto’ três dias!”

No final, a coruja morreu e o bem te vi ganhou a aposta e ainda ficou com o papinho cheinho.

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ADIVINHAÇÃO

Nasci branco

Fiquei verde

De amarelo, vermelho,

Preto, cor de chumbo

Hoje sou querido de todo mundo.






Resposta: café

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HISTÓRIAS

Um homem matou, com um só tapa, sete mosquitos. Escreveu na testa assim: “MATEI SETE DE UMA SÓ VEZ”. E saiu.

No caminho encontrou com um gigante que disse: “Ah é! Então venha comigo!”

O gigante o levou para a floresta, abaixou um galho de uma árvore e o mandou segurar.

Quando o gigante soltou o galho, o homem foi parar lá do outro lado.

O gigante disse: “Assim que você matou sete de uma só vez?”

O homem respondeu: “Mas isso foi só um pulo que eu dei.”

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Um padre estava passeando quando chegou em um sobrado com um riacho. Perguntou para o menino se era fundo. O menino respondeu: “É nada! Os animais do meu pai passam e nem afundam.”

Só que ele se referia aos gansos do pai dele. O padre passou com o cavalo e quase afundou de tão fundo.

O padre ficou muito aborrecido e disse para o pai do menino que deveria educar melhor o menino. Combinou com o pai do menino que o levaria com ele para educá-lo, mas queria mesmo era dar uma lição no menino.

De posse de uma palmatória, fazia perguntas e o menino respondia. Só que o padre dizia que estava errado e batia no menino.

_ O que eu sou?

_ Padre.

_ Não senhor. Papa hóstia!

_ O que é aquilo ali?

_ Mulher.

_Não, senhor! É dona Frangozona!

_E isto aqui?

_Banco.

_ Não. É quebra canela.

_ E isso?

_ Gato!

_ Errou! É papa-gato!

E cada resposta que o padre considerava errada, o menino apanhava.

O menino falou: “Esse padre me paga!”

Pegou o rato e botou um facho no rabo dele. Pegou um banco e botou na porta. Tudo isso e o padre dormindo.

Quando estava tudo preparado ele disse:

_ Acorda seu PAPA-HÓSTIA! Com a DONA FRANGOZONA, que lá vai o PAPA-RATO com o LABORANTE no rabo! Acorda com a BONDÂNCIA, e o QUEBRA CANELA na porta!

O padre acordou assustado, bateu a canela no banco e não pode fazer mais nada!

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Eu, Carolo e Zetinha
Eu, Carolo e Zetinha

Eu e Dadate.
Eu e minha irmã Dadate
Eu e Odete Lyrio. Ela era da Regência e namorava Dadi.
Eu e Odete Lyrio.
Ela era da Regência e namorava Dadi.

Eu, Carolo, Dadate, Wanda, finada Zizica e Zetinha.
Eu, Carolo, Dadate, Wanda,
finada Zizica e Zetinha.
Eu, Dadate, Zetinha, Avenir e Didi. No colo, Anete e Manoel.
Eu, Dadate, Zetinha, Avenir e Didi.
No colo, Anete e Manoel.

Carneira criada na mamadeira quando eu ainda era solteira.
Carneira criada na mamadeira
quando eu ainda era solteira.

Dadate, eu, Didi, Avenir, Manoel Antônio.
Dadate, eu, Didi, Avenir, Manoel Antônio.
E no colo, Ana Lúcia e Terezinha.

Eu e a cachorrinha Faísca.
Eu e a cachorrinha Faísca.

lembrança de batizadopasseio convento
Lembrança do batizado de Ivan em 10/08/1964
na Capela de N.S. da Conceição

Finada Zizica, eu, Mamãe, papai,
Finada Zizica, eu, Mamãe, papai,
Ary, Nice, Hilda e Zetinha.

Eu, Nice, Zizica, Hilda, Maria José (uma menina
Eu, Nice, Zizica, Hilda, Maria José
(uma menina que mamãe criou) e Zetinha.

batizado Anete batizado convento Anete
Batizado de Anete no Convento.
Foi um caminhão cheio de gente para ver o batizado.

meninas segurando jacaré
Segurando a cabeça de Mariquinha, Dadate, eu no meio e ao lado Anita.
Sentadas: Déia, Nice, Edinéia, Wanda e a cachorrinha Faísca

Carolo, Ary, eu e o finado Joãozinho. foto
Carolo, Ary, eu e o finado Joãozinho.

familia reunida
Eu, Dadate, Wanda, Ary e
o caçulinha que morreu.

Meu casamento. Eu, Carolo e a daminha Zetinha.
Meu casamento. Eu, Carolo e a daminha Zetinha.

A madrinha uma simples recordação do meu Enlace Matrimonial
“A madrinha uma simples recordação do meu Enlace Matrimonial.”
Mamãe papai Mamãe e papai
Mamãe e papai.
Ana Teubner e Manoel dos Passos Lyrio